REVIEW: BLACK MIRROR 4º TEMPORADA

Por Eduardo Tavares

 

No final de dezembro a NetFlix liberou os tão aguardados episódios de Black Mirror, deixando muitos fãs felizes após uma longa espera desde a temporada anterior. A série dessa vez se superou em todos os quesitos, trazendo episódios de tirar o fôlego. O que torna impossível assistir apenas um por vez.

O protagonismo feminino está em peso nessa temporada, tendo em todos os capítulos protagonistas fortes e inteligentes. O que também pôde se ver nas maiores bilheterias de 2017, onde Star Wars, A Bela e a Fera e Mulher Maravilha se destacaram.

2017 também mostrou que a realidade futurista de Black Mirror não está tão longe de nós como pensávamos. Foi o ano em que a robô Sofia ganhou cidadania na Arábia Saudita – sendo a primeira a conquistar o feito- e também o ano em que vimos a criação da pílula digital, que informa através de um chip se um paciente tomou, ou não, um remédio. “Isso é tão Black Mirror”. A frase, que ficou famosa na internet após a popularização da série, caberia perfeitamente em todos esses casos que o ano passado trouxe como presente.

Em mais uma temporada somos confrontados com os dilemas do uso da tecnologia, que em muitas vezes criada com o intuito de melhorar nossas vidas, acaba criando situações perigosas.

Nos é mostrado que ela em si não é o perigo, mas o uso que o ser humano, dotado de livre arbítrio, faz dela.

Os tipos de tecnologia usados em alguns momentos se tornam repetitivos, mas com um propósito: fazer uma conexão entre as histórias. Isso fica bastante evidente no último episódio, onde tudo se liga. As narrativas, que pareciam ser independentes entre si -possuindo começo, meio e fim- começam a se encaixar no último da temporada.

USS Callister

A temporada começa com um episódio surpreendente em se tratando de roteiro, fotografia, efeitos especiais e atuações. Temos no enredo a história de um programador, co-fundador de uma empresa de tecnologia, que embora seja um gênio e mente por trás de tudo, não tem o reconhecimento e respeito de seus funcionários.

Ele cria um mundo virtual, onde desempenha seu sonho de viver em uma fantasias intergaláctica, onde é adorado pelos personagens dessa realidade. Eles são seus funcionários no mundo palpável, e no mundo virtual devem obedecê-lo sob pena de sofrer as consequências do mal comportamento.

Esse mundo fantástico faz referência a série de sucesso “Jornada nas Estrelas”, e como num sonho é apresentado ao espectador com muitas cores, figurinos e penteados, que remetem ao clássico da década de 70.

Por trás desse jogo de faz de conta, a personagem expõe a sua verdadeira identidade de pessoa tirânica e maquiavélica. Esse episódio mostra que a sociedade nos molda, de forma a nos privar de por para fora nosso lado ruim e primitivo. Mas em um ambiente virtual e livre das normas morais, um indivíduo frustrado, como o antagonista do episódio, se mostra da maneira que é. É a velha ideia de que o poder em nossas mãos mostra quem realmente somos.

Os criadores cogitam fazer uma série própria e independente para o “USS Callister” . Se tratando do seu grande sucesso entre os internautas, isso pode ser uma ótima empreitada da NetFlix.

ArkAngel

Nesse episódio presenciamos uma mãe traumatizada com o desaparecimento temporário de sua filha e o uso de uma alternativa tecnológica de rastreamento e privação de perigos criando uma constante proteção parental. O resultado, como em todos os outros é o mesmo, um desastre nas vidas dos envolvidos. A superproteção da mãe cria conflitos ainda maiores do que já são de se esperar numa relação normal. O agravante de uma tecnologia que tira completamente a privacidade de uma adolescente, dando a mãe o poder de ver tudo o que os olhos da filha podem captar levantam as questões éticas do nosso tempo: até onde um pai pode interferir na privacidade de um filho para tentar protegê-lo do mundo?

Dirigido pela conhecida Judie Foster o episódio traz pitadas de romance, drama e suspense. Conta com uma fotografia que alterna entre fria e quente, que consegue passar bem as emoções e sensações pelas quais a personagem passa ao longo de sua trajetória da infância à adolescência.

Crocodile

Nessa história acompanhamos uma arquiteta que tenta se livrar das pistas e pessoas que possam trazer a tona um crime que ela cometeu no passado. Com sua carreira e reputação em jogo, ela não mede esforços para fazer com que a situação entre em controle, mesmo que isso custe a vida de outras pessoas. O enredo vai ficando mais tenso com o decorrer do tempo e você se depara com as atitudes cada vez mais cruéis e desumanas da personagem para poder se safar de seu crime. Tudo vira uma grande bola de neve e o final é bem previsível. Esse é o episódio que mais carece de saídas inteligentes e malucas para tratar da história.

Hang the DJ

Com o advento de aplicativos de paquera nos dias atuais, não é difícil criar empatia com os protagonistas desse episódio. Nele, uma tecnologia se encarrega de escolher seu par ideal. Porém, ela não te permite ficar mais tempo com ele do que o necessário, baseado em um cálculo feito a partir do perfil de cada usuário. Essa privação de escolha se respalda na ideia de que precisamos ter vários relacionamentos curtos para criar experiência, para só assim, depois encontrar o par perfeito.

É claro que em se tratando de coração, nenhuma máquina seria capaz de calcular com exatidão o tempo e quem seria o verdadeiro amor. E é com esse enredo, que temos um dos episódios mais emocionantes, doces, românticos e engraçados da temporada.

Metalhead

A estética em preto e branco do episódio já nos alerta que será sangrento e cheio de tensão. Ele nos remete aos clássicos de terror e ação na maneira de enquadramento e trilha sonora.

Temos aqui uma heroína fugindo de uma robô cão, que possui super agilidade e armas em suas patas. Quase um exterminador do futuro canino. Presa em um mundo pós apocalíptico, dominado por essas criaturas, ela tenta se salvar em uma fuga constante. Mas não nos é muito informado em que contexto tudo aquilo está acontecendo. É ,sem dúvida, um dos episódios mais pesados de se assistir, o que faz a técnica em preto e branco amenizar o desconforto que seria ver todo o sangue jorrando nas cenas. Algo até meio Tarantino.

O episódio nos mostra que como humanos, temos a ferramenta da criatividade a nosso favor e isso num futuro dominado pelas máquinas poderia ser a nossa salvação, talvez. Em diversos momentos a heroína prega peças no cão, conseguindo fugir graças a sua sagacidade.

Outro fato interessante é que esses robôs que imitam perfeitamente animais e tem capacidades de super agilidade e super força já fazem parte de nossa realidade. É só procurar no YouTube sobre robôs, que você irá se surpreender. Imagina se algo assim cai em mãos erradas?

Black Museum

O episódio mais impactante e gore chega por último. Em Black Museum temos uma viajante, que ao parar para abastecer seu carro, decide passar em um Museu bem próximo  e repleto de tecnologias, que embora fantásticas e revolucionárias, no passado foram responsáveis por grandes crimes e violações à vida humana. Estamos falando de todas as ferramentas dos episódios anteriores.

É aí que as histórias se cruzam e a gente pode entender um pouco mais sobre quem estava por trás de tudo aquilo. Nesse capítulo final somos informados sobre a origem e saboreamos um incrível final arrebatador, que nos faz querer apenas mais e mais de Black Mirror.

Conclusão

Nessa temporada, Black Mirror se mostrou mais maduro e parece ter seguido a receita do emblemático primeiro episódio da terceira, que fez muito sucesso entre o público. Os roteiros parecem seguir uma linha mais direta ao ponto, com ritmo, mas sem deixar de manter o mistério, que é marca registrada da série. Ela também nos expõe ao terror em muitas vezes, em momentos que já estamos emergidos e nos causa desconforto e pavor. Isso tudo nos marca e faz repensar todos os conceitos apresentados. A série nos faz questionar a maneira como vivemos, pois ela é passada em uma distopia, que está intimamente ligada à nossa realidade.

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