Ensaio: Os Vingadores: A Era de Ultron (2015)

Por João Paulo Rodrigues

Ao iniciar esse ensaio, é bom deixar claro que esse texto terá revelações da trama de Os Vingadores: A Era de Ultron. Em caso se não tiver assistido, se recomenda ler esse texto após ter assistido o filme.

Os Vingadores: A Era de Ultron se transformou no espelho cruel do que se transformou a Marvel na sua segunda fase. A empresa no cinema na segunda fase começou o plano em marcha de levar a tela dos cinemas sua saga mais ambiciosa e ao mesmo tempo a mais complexa de se encaixar nos cinemas que é das Gemas Infinitas. O primeiro passo para isso foi a revelação de Thanos no primeiro filme dos Vingadores. Após isso começou uma sucessão de filmes que deveriam provar que seus heróis são relevantes. Nesse ponto “Thor e O Mundo Sombrio” e “Iron Man 3” não conseguiram uma expectativa adequada (consenso entre público e crítica). Entretanto, “Capitão América 2” consegue superar o primeiro filme com folga e “Guardiões da Galáxias”, os novos queridinhos da casa das idéias e talvez o único de todas as adaptações que seja um filme autoral (caso conhecer o trabalho de James Gunn).

Em 2015, o cinema de “super-heróis” começa entrar em uma interessante crise no qual é visível a saturação de adaptações de quadrinhos. Muitos reclamam que isso evidência que o cinema americano se apegou de uma maneira tão ferrenha a esse tipo de cinema que é mais admirável ver algo “original” se transformar em uma produção que não é remake, continuação ou adaptação de quadrinhos (por mais doloroso que seja, San Andreas se encaixa nesse filão, mesmo parecendo copy-paste de filmes de catástrofes). Entretanto, os avanços da DC de criar um universo realmente interessante com “Batman vs Superman” e “Esquadrão Suicida” e o surpreendente sucesso de crítica e bilheteria de “Ant Man”, no qual parecia tudo a perder com a troca de diretor, continuaram dando o que falar sobre HQ e mais ainda quando realmente exista a coexistência entre a audiência e a critica especializada. Por outro lado, no mesmo 2015 fomos testemunhas do desastroso “Quarteto Fantástico” de Josh Trank (filme que se esperava pelo menos uma versão do diretor e documentário sobre os bastidores e o espiral que entrou Trank e sua reputação) e “Os Vingadores” também se encaixa nesse lado negativo mas de uma maneira mais decepcionante e não de mediocridade cinematográfica.

O filme de Joss Weddon em comparação ao primeiro filme denota uma queda de qualidade tremenda. Enquanto o filme original nos brindava cenas de ação imaginativas, balanceamento cômico e um antagonista a altura dos personagens: O incrível Loki e a atuação brilhante de Tom Hiddeston. A continuação se perde na ação, poucas cenas engraçadas (mas se olhar as piadas involuntárias, o filme tá cheio) e principalmente um antagonista patético que é Ultron (voz de James Spader) demonstrando de uma maneira bem clara que o Universo Marvel cinematográfico carecem de vilões a altura. Existem poucos pontos positivos que valem a pena ser citados que é uma construção mais elaborada para personagens que ainda não tiveram seus filmes como Hankeye, Viúva Negra, Mercúrio e Feiticeira Escarlate. Ao mesmo tempo, os defeitos do filme não atrapalham a fluidez do filme. Os Vingadores continuam sendo uma exemplificação de como a Marvel ao largo desses últimos 7 anos se transformou no império de adaptações. Para terem uma ideia de como esse império é tão bem sucedido, não existe uma adaptação da Marvel Studios (desconsiderando Marvel Knights no qual incluem Punisher War Zone e Motoqueiro Fantasma 2), nenhum filme desse universo tem menos de 65% de aprovação no Rotten.

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Por outro lado, a única coisa de verdade que vale a pena analisar bem em Age of Ultron é simples: A abordagem do medo. No início do filme, os heróis vão em busca de mais uma sede da HYDRA no Leste Europeu e ao mesmo tempo, localizar Mercúrio e Feiticeira. Após desmantelar a operação, Tony Stark busca de mais informações e é enfeitiçado pela Escarlate e a visão que ele tem é assustadora e cruel: Todos os vingadores caídos e a terra invadida novamente. Após isso, ele decide levar a cabo a operação de criar uma inteligência artificial no qual tem a necessidade de manter a paz a todo custo. Dai, nasce Ultron. Interessante é que Ultron se revela contra Stark e Os Vingadores já que a inteligência artificial pesquisou sobre o passado de cada um e por ter essa programação de manter paz, viu  nos Vingadores como uma ameaça.

Na construção da memorável (ou pelo menos a única digna de lembrança) entre o embate de Iron Man e Hulk, é mais interessante a construção para que acontece nessa cena é bem mais atrativo. O grupo encontra uma pista de um contrabandista em África por ter roubado um material raro de Wakanda (dando uma entrada para Pantera Negra). Com isso, os heróis entram em conflito com Ultron e já com os irmãos trabalhando para ele. Enquanto Iron Man tenta destruir Ultron, a Feiticeira consegue enfeitiçar Thor, Capitão América, Hulk e Viúva Negra. O feitiço fez com que cada um lidasse com seu mais profundo medo, afinal, o “plano” de Ultron se baseava na desconstrução do grupo de heróis de dentro para fora.Interessante fica que cada personagem que foi enfeitiçado demonstre um tipo de medo diferenciado. O medo de falhar como herói responsável (Thor), de perceber que não terá paz após as batalhas (Capitão America), de lidar com as escolhas para se tornar o que é (Viuva Negra) e principalmente: a negação da sua verdadeira natureza (Hulk).

Os Vingadores: A Era de Ultron tinha a oportunidade perfeita de trabalhar um ponto importantíssimo para uma trama de super-heróis que é a funcionabilidade do medo imposto ao personagem. Dando o que talvez seja o significado do medo: do temor que vem o fracasso. Do temor que vem a desconstrução de si mesmo. Do temor que vem contaminar tudo que foi construído de bom para seu universo. E ainda mais lembrar o verdadeiro papel do herói: vencer seus próprios temores e ser um simbolo para outras pessoas vencerem seus medos com a lembrança de como são poderosas.

Mas na realidade, o filme tem os mesmos problemas que tiveram Iron Man 2 e Thor O Mundo Sombrio: a necessidade de expandir esse universo sendo relapso em questão de história, de um conflito e até mesmo de estilo de direção. Em muitos momentos não estás vendo um filme dos Vingadores, mas um exercício de ego da Marvel para entregar algo grandioso que poderá ser o filme definitivo das Gemas Infinitas. Não está errado em nenhum momento criar um universo, ao contrário, isso está ajudando que o espectador não se isole ao filme, mas também com outros tipos de mídia (coisa que a Marvel está dando um espetáculo com Os Agentes da Shield e Demolidor). Entretanto, é necessário também que o filme seja valido e que funcione como um projeto solo e sólido. Pena que desta vez, isso não aconteceu.

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