Crítica: Que Horas Ela Volta? (2015)

Por Alysson Melo

 

A pernambucana Val (Regina Casé) se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino (Michel Joelsas) vai prestar vestibular, Jéssica (Camila Márdila) lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica. E esse é o remote de Que Horas Ela Volta?, onde mostra a real vida de muitas empregadas domesticas do Brasil.

Esse é o novo longa da diretora Anna Muylaert (É Proibido Fumar, Durval Discos) que está sendo muito aguardado pelo público pelo seu ótimo trabalho. Em seus longas anteriores já se notava o trabalho como diretora em efetuar uma direção bem feita e de maneira bem convincente e autoral, aqui ela mostra um grande crescimento nos trazendo uma direção mais madura, forte e excelente conseguindo montar bem a caracterização dos personagens de maneira bem clara, ágil e com muita sensibilidade.

A escolha de trazer Regina Casé para ser a protagonista para muitos poderia ter sido um trabalho arriscado ou duvidoso, mas para quem conhece de verdade a atriz que Casé é sabe que esse papel seria muito bem desempenhado por ela, e ela conseguiu trazer a essência da personagem de forma bem real ao interpretar uma doméstica nordestina porque ela representou a realidade de muitas empregadas, a que trabalha integralmente junto a seus patrões e que vive em um quartinho nos fundos da casa e essa foi uma boa sacada do roteiro, pois o público que está assistindo vai se identificar logo com a personagem que muitos de nós conhecemos ou já convivemos um dia.

O roteiro mostra os conflitos sociais e dramas vividos por uma família que está desestruturada e separada. De um lado a mãe que é empregada doméstica, que veio trabalhar em SP e deixou a filha pequena na sua cidade de origem PE a fim de dar uma melhor condição para a filha. E do outro lado está a filha que teve pouco contato com a mãe e que ambas deixaram de se falar devido à falta de convívio entre elas e isso no filme fica bem claro que ambas não se conhecem bem e o fato de ela vir passar uns tempos com a Val, o que acarretaria em várias mudanças na vida das duas. Ao se reencontrarem, é como se elas estivessem se conhecendo pela primeira vez e teriam que tentar uma conexão maior, a ponto de finalmente poderem ter uma relação entre mãe e filha de verdade, mas é obvio que a curiosidade de Jessica trará muitos conflitos na casa dos patrões de Val e tudo é mostrado de forma tão realista e pessoal que era impossível não se encantar por esses personagens que é tão gente como a gente.

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Regina Casé faz uma excelente atuação digna de prêmios e de todo o reconhecimento que ela está tendo nos festivais e nos locais por onde o longa é exibido, Casé conseguiu trazer para a história todo o seu lado dramático e ao mesmo tempo cômico e cativante além de ter feito uma boa composição para a sua personagem, eu vejo ali uma empregada doméstica e não a Regina Casé e isso que é o legal porque ela ficou tão bem caracterizada que poderia ser qualquer empregada com quem já vivemos ou conhecemos. A atriz Camila Márdila faz sua estreia nas telonas como a filha de Val e ela trouxe toda a sua exótica beleza e talento para a história de forma que sua personagem conseguiu mostrar uma adolescente nordestina bem realista desde os trejeitos e atitudes a maneira de se portar e de seu sotaque, sendo assim uma boa revelação e que possui um bom futuro pela frente como atriz. Outro destaque é para o lado dos patrões com a dona da casa onde a Val trabalha vivido pela atriz Karine Teles onde mostra bem o lado rico da história da mulher que vive pro trabalho e deixa seu filho nas mãos da empregada e tem uma relação com o marido de forma estável e estagnada, a atriz conseguiu montar muito bem a riqueza e as diferenças das classes sociais e os embates entre o pobre e o rico, as regras de convivência na casa assim como se sentir ameaçada por uma presença estranha, essa é uma realidade mostrada de forma bem nua e crua onde muitas domesticas tem que se sujeitar a conviver com diversas regras de conduta para se manterem em seus empregos.

O enredo mostra a bonita relação entre Val e Fabinho (Michel Joelsas) que convivem desde quando era pequeno e conforme os anos passaram o amor e carinho entre eles só aumentou, fica claro no longa o amor que um sentem um pelo outro, um amor de mãe e filho, que devido a pouca atenção da mãe, Fabinho se apegou mais a Val de forma que eles tinham uma grande relação de carinho e amizade a ponto dele dormir no quarto da empregada sem os pais saberem sendo um segredo só deles, assim como uma grande cumplicidade que ficou entre eles.

A narrativa traz os conflitos de classes, desigualdades sociais, integração social, preconceito entre outros temas, todos tratados com muita sensibilidade. O longa mescla muito bem a comédia com o drama, ambos na medida certa e sem extrapolar o outro de maneira bem dinâmica, ágil e direta. O roteiro no decorrer da história da uma evoluída e toma um incrível rumo na vida dos personagens:

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***SPOILER ***

Que é o de libertação e amadurecimento depois de ver a filha sair da casa de seus patrões e de ver o Fabinho indo embora fazer um intercâmbio ela percebe que não há mais motivos de ela permanecer no emprego e depois de tantos anos trabalhando no mesmo lugar ela se sente muito na dúvida e perdida e aí que acontece a grande reviravolta: sair do empego e ir cuidar de sua filha e é onde acontecem uma das melhores cenas que é mãe e filha se reconectando e mesmo sem rumo definido elas juntas irão em busca de novos rumos e desafios e esse é uma das vários aprendizados que tiramos do filme.

De Que Horas Ela Volta? Remete a personagem Val voltar para a sua cidade de origem como também remete a Mãe voltar para os braços da filha, esse é sem dúvida o melhor filme brasileiro do ano em disparado e que eu recomendo muito a todos assistirem a essa maravilha de filme que merece e muito todos os reconhecimentos que está tendo em todo Brasil e ele tem de ser indicado na tentativa de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016, agora é só ficar na torcida.

ALYSSON MELO
ALYSSON MELO

 

Nota: 10/10

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