Crítica: O Julgamento de Viviane Amsalem (2015)

Por Gabriel Fagundes

 

O exemplar Israelita indicado ao Globo de Ouro do ano de 2015 traz consigo uma crítica pertinente aos dias atuais, que incessantemente é assunto de debate por todo o mundo e gera, especialmente, muita polêmica tanto para o lado de quem questiona quanto pro lado de quem é questionado. O tema em questão é a mulher, a delimitação do assunto é até onde vão os direitos da mesma diante da cultura no qual ela está inserida.

A obra já se inicia dentro do que podemos dizer um tribunal, aparentemente voltado a discussão de casos de divórcio e sob o domínio de rabinos, únicos no que se diz respeito a dissolução e firma de casamentos em Israel. Ali encontram-se mulher, marido, advogados e juízes. Insatisfeita com a união, a mulher pede pelo divórcio, o marido por sua vez, nega, insistentemente. A problemática que envolverá todo o contexto da obra se dá encima da realidade dos costumes tanto Israelitas, quanto Judaicos, onde o homem tem direito sobre a mulher e é ele quem decide o veredito dessa união, não rabinos, nem advogados. Seguimos essa linha onde o marido, frio, determinado e de poucas palavras por muitas vezes se ausenta de reuniões, deixa de responder perguntas cruciais e menospreza o sentimento, ou a falta do mesmo, de sua ainda esposa, e com o passar dos minutos tudo parece ainda mais emblemático quando testemunhas de ambos os lados são ouvidas.

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Durante o decorrer do tempo nos é mostrado uma realidade cruel e palpável das mulheres daquele lado do mundo: submissas, reprimidas, fadadas aos costumes e a conduta que lhe são impostas pela sociedade e moralmente incapazes de se libertar desse mau. Somos indagados também acerca dos limites do que se é tolerável e por alguns instantes, realmente nos sentimos na pele de quem vive o drama. A religião também traz sua parcela de culpa para o desenvolvimento da fadigada relação, Judeu, o marido se nega a ir contra a doutrina, adotando uma série de peculiaridades em que nada beneficia sua amante. Mas longe de fazer comparativos ou associações a crenças ou ao célebre e desajustado movimento feminista, (que muitas vezes perde o foco e visa a opressão do sexo masculino e o boicote de produtos e quaisquer serviços que aos seus olhos tragam o mínimo de sarcasmo e apresentem, mesmo que involuntária ou discretamente, uma diferença para os gêneros) o objetivo é trazer a tona essa viés tão pouco explorada e distante do nosso conhecimento que é a vida e exploração da mulher desse lado do globo.

Dois irmãos dirigem o longa, um homem e uma mulher, essa segunda também é a personagem principal e roteirista. O elenco não encara muitos desafios e suas performances são sempre muito bem acentuadas. A fotografia é claustrofóbica, já que ficamos limitados a um ou dois cenários durante toda a projeção, mas isso não impede um excelente trabalho de iluminação da parte técnica para as cenas no qual se veem na necessidade de um brilho mais intenso ou dos câmeras, em capturar os profundos e melancólicos olhares daqueles tão em sintonia atores. A trama é bem estruturada e ágil, nunca cansando o espectador ou tornando a experiência enfadonha, os quadros são ajustados e história flui de uma forma sempre interessante para o público. Não há ressalvas quanto ao esqueleto da obra.

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Para o bem ou para o mal, depois dos cinco anos de julgamento, nos é fechada uma porta ao final da projeção. Um sentimento de estar alheio de si mesmo vai se formando e somos convidados a refletir sobre os acontecimentos enquanto créditos com um fundo vermelho sobem e uma trilha fúnebre toca. É desconfortante pensar sobre a situação da dupla de protagonistas, porque afinal, ambos estavam certos, mesmo que em partes, um esteja errado. Há quem consiga dissertar até sobre o amor encima do texto do longa, o marido realmente o sentia pela sua esposa, mas teria esse sentimento sido o suficiente? Podemos concluir essa questão da seguinte maneira: o tempo não mede esforços para preservar absolutamente nada, e com ele não se vão só os anos, mas aquilo que um dia poderia ter sido ou foi. Amor sim pode ter data de validade e não deveria ser obrigação de parte alguma desperdiçar a vida em algo que já está vencido.


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GABRIEL FAGUNDES

Nota: 8/10

2 comentários em “Crítica: O Julgamento de Viviane Amsalem (2015)

  • 10/09/2015 em 06:42
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    hahaha, é um tema bastante polêmico. Obrigado!

  • 22/08/2015 em 15:15
    Permalink

    Muito intrigante o tema, ótima dica amigo, vamos procurar ver esse filme, parabéns!!!

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