CRÍTICA: AZUL É A COR MAIS QUENTE (2013)

Por Gabriel Fagundes

 

Indicado ao Globo de Ouro e vencedor do prêmio máximo do Festival de Cinema de Cannes, azul é a cor mais quente é uma obra sensorial e muito inteligente, que desde seu início nos apresenta a uma personagem perdida em pensamentos e vontades para assim compartilharmos suas descobertas e frustrações. Mesmo ora funcionando, ora se alongando, o diretor é extremamente feliz ao não impor a costumeira rapidez no desenvolvimento da relação principal a ser filmada, criando então um filme qual o público aceite e se identifique.

Tudo se dá início quando Adèle, uma garota de 15 anos, descobre na cor azul dos cabelos de Emma, sua paixão por outra mulher. Sem poder revelar a ninguém seus desejos, ela se entrega por completo a este amor secreto, enquanto trava uma guerra com sua família e a moral vigente. O tema, particularmente polêmico, tece uma perspectiva de que a obra enfatizará o amor lésbico sobre todos os outros e terá o mesmo discurso prolixo sobre preconceito e discriminação, entretanto, nem sempre podemos julgar um livro pela capa. O filme foge de todos os clichês do subgênero ao construir com tão pouco algo profundo e reflexivo. A premissa até então simples e comum para o cinema, ao invés de desbotar, pinta de aquarela uma obra que tinha tudo para ser mais uma. E é nessa simplicidade da relação das meninas, aliada a um roteiro realista, que vamos sendo levados a compreensão daquele universo, uma vez tão indecifrável e misterioso.

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Após finalmente nos acostumarmos com aquelas silhuetas se entrelaçando e lábios se tocando, o diretor resolve expor uma série de fatores tanto benéficos quanto maléficos que acometem o relacionamento das garotas: as descobertas, que se fazem da apreciação do particular alheio, da vontade de querer saber tudo sobre o outro e principalmente da curiosidade por uma vida um pouco fora dos padrões; o sexo, aqui, no caso, bastante exposto, com direito a nudez explicita e cenas de tirar o fôlego, mas nunca sem relevância para a trama; a idá a casa dos pais, o segmento mais temido por quem tem uma relação homoafetiva, talvez pela reprovação familiar vir sendo incrustada no subconsciente coletivo como algo inadmissível desde o alvorecer da sociedade pensante, o que é intolerável, visto que o processo evolutivo da comunicação do homem para com seu semelhante finalmente chegou ao ápice de seu progresso, e hoje sim, sabemos que o errado é um conceito relativo; o amor altruísta, bastante presente nas relações de anos e muito comum em enamorados que se sentem na necessidade da total compreensão do seu parceiro; a desconfiança e o ciúme, disfarçadas com olhares distantes as personagens veem e cogitam possibilidades caóticas uma para outra, o poder autodestrutivo do receio de estar sendo substituída vai crescendo e resulta numa eventual implosão de ambas as partes; o fim, é sempre muito difícil dizer quando as coisas estão complicadas e nós nem notamos quando elas de fato se tornam, apenas procuramos automaticamente a solução, e quando não encontramos em um lugar, vamos em outro, por isso a maioria dos términos é regada a muitas palavras caladas e sentimentos rasgados, a muitas lágrimas e pedidos de perdão, em razão de nos sentirmos arrependidos e somente nos últimos minutos vermos com clareza o valor daquilo que tínhamos em mãos. Obviamente se inspirando na história de vida de muitos casais gays que existem espalhados por ai, enfim Abdellatif Kechiche criaria sua obra-prima, que logo após a estreia serviria de ícone para determinados grupos e cairia no gosto de muita gente, mas não de todos.

Azul é a cor mais quente apesar de alcançar a proeza de sintetizar uma relação realista e madura sobre a vertente do homossexualismo, coisa que a maioria das produções não consegue nem com casais héteros, é um filme longo em demasia. Diversos contextos são criados para a formação de alguns núcleos que com o passar do tempo vão sendo abandonados sem aviso prévio ou conclusão, o que desperta uma insatisfação para os mais atentos e curiosos para com os detalhes da trama. Ainda seguindo essa lógica, ao final da projeção o sentimento que permanece no espectador é o famoso “mas não está faltando alguma coisa?”. A resposta que lhes dou para esse questionamento, como humilde amante da sétima arte, é que a obra, inicialmente proposta como um filme independente feito para festivais, recebeu um destaque nas mídias até então inédito para uma produção com essas características, o que chamou a atenção de um contingente exorbitante de espectadores famintos por uma história com tema gay, supervalorizando e elevando ao máximo o nível do que deveria ser um trabalho sem muitas pretensões. Assim criou-se uma imagem à la Cidadão Kane (famoso filme que revolucionou tanto a estética quanto a forma de contar histórias no cinema) em cima de Azul é a cor mais quente, fazendo muitos acreditarem estar para assistir a uma obra de arte cinematográfica, enquanto o que realmente havia ali eram as descobertas de uma menina curiosa e a impressão dos valores de um casal lésbico no século XXI.

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O processo de produção da obra sofreu de diversos males também, desde desistências até brigas entre atores e diretor. Se a obra peca na parte técnica em algum ponto, é na montagem, que em pouquíssimos momentos se aproveita do ambiente e da carga emocional do espaço e atores, impondo uma passagem de tempo confusa que muitas vezes deixa quem assisti perdido quanto ao tempo que se passou durante a extensão da obra. Todo o resto está impecável, com destaque para a fotografia e direção de atores, esse segundo ainda mais marcante, com um desempenho fenomenal do conjunto. Homenageando o meio artístico e se olharmos um pouco mais profundamente, também o cinema, Léa Seydoux interpreta uma personagem forte que exigiu um comprometimento descomunal da mesma para o cumprimento da tarefa. Contudo, as honrarias e parabenizações ficam por conta da novata Adèle Exarchopoulos na pele da protagonista, ela executa um trabalho que sem sombra de dúvidas será um dos que mesmo depois de anos ainda serão lembrados, com uma entrega absoluta ao personagem, a atriz consegue transmitir com clareza o viés de anseio por mudanças que se estabelece da primeira dúvida até o momento chave onde as meninas se encontram.

Nascido da vontade de reproduzir humana e fielmente um relacionamento gay em tempos modernos, o filme estabelece um contato singelo e prazeroso com o espectador já cansado dos estereótipos do gênero, se tornando uma experiência que, mesmo para os que julgam previamente, é intensa e bem articulada. Enfim, azul é a cor mais quente é cinema enquanto vida, reconhecendo a condição de existência de cada microssomo e as digressões que o levam ao seu famigerado ultimato. O cinema clássico francês agradece imensamente e clama por mais obras que remetem sua narrativa aos pioneiros dessa arte.


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GABRIEL FAGUNDES

Nota: 7/10

Um comentário em “CRÍTICA: AZUL É A COR MAIS QUENTE (2013)

  • 26/07/2016 em 15:34
    Permalink

    É como você mesmo fala, o filme termina devendo-nos alguma coisa, aquela história de felicidade eterna, o reencontro que não aconteceu, a dor da ferida não curada da traição. O desejo monogâmico de cada ser humano se realizando, mais impossível de ser satisfeito num mundo pós-moderno onde a falência das instituições é um fato e porque não dizer das relações.

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