ANIQUILAÇÃO (2017) “INOVA EM IDÉIA E ABORDAGEM DO TEMA, EMBORA NO FIM TENHA DEIXADO MUITAS COISAS NO AR”

Por Eduardo Tavares

 

Por falta de dinâmica, justamente em se tratando de um filme de terror/syfy, alguns espectadores podem se decepcionar com “Aniquilação”, que mantém um clima morno em grande parte, e não entrega um clímax surpreendente no fim. A minha impressão até a metade foi negativa, devido a essa dificuldade da produção de manter o espectador preso á história, por mais interessante que ela seja.

Embora muito parecido esteticamente com filmes como “Predador” e “Prometeus”, ele se distingue dos anteriores no aproveitamento das cenas de ação. Sua abordagem mais científica e filosófica do tema pode contrariar as expectativas daqueles que procuram um filme recheado de sustos e perseguições, protagonizadas por monstros alienígenas. Embora perca grande parte do tempo com cenas monótonas, onde é explorada a beleza cenográfica, que transmite além do belo, o estranho, tenho que admitir: o filme tem um conceito interessantíssimo, que passa despercebido para os que não tem olhar direcionado. Ele se apoia em conceitos da biologia e da evolução da vida na Terra para sustentar sua premissa, o que é percebido logo no início, onde Lena, a protagonista, dá uma breve explicação de como surgiu vida na Terra.

@Divulgação Netflix

Partindo do princípio de que evoluímos a partir de uma mesma célula que se dividiu exponencialmente até virar um organismo primitivo, que por sua vez, evoluiu e sofreu mutações sucessivas, até chegar ao ser humano, podemos assumir que ainda carregamos características genéticas de nossos coabitantes mamíferos e répteis, por exemplo. Umas ativadas em nosso fenótipo e outras não. Esse universo genético que vive em nós é explorado e embaralhado em uma dimensão em expansão que é o grande mistério e desafio do filme.

Essa dimensão surge a partir da colisão de um cometa numa determinada região da atmosfera, que começa a criar anomalias no seu raio de expansão. Vendo a partir de um olhar filosófico, essas anomalias se relacionam com a maneira de agir das personagens, que possuem características auto destrutivas. Todas elas têm um passado conturbado e de muitas perdas, que justificam sua entrada numa missão suicida, onde quase todos os voluntários que foram, não voltaram para contar história. A exceção do marido de Lena, que volta muito estranho e com saúde debilitada.

@Divulgação Netflix

Lena é interpretada por Natalie Portman, grande atriz, que recusa papéis milionários e que protesta em premiações. Ela traz uma atuação que se divide entre emocional e cerebral. A personagem é uma bióloga, que é chamada para uma missão perigosa: entrar com um grupo de profissionais qualificadas para explorar uma área misteriosa que se expande como um câncer. Muito seletiva com seus papéis, Natalie fez um grande trabalho, que se destaca, deixando todos os outros coadjuvantes apagados em suas atuações pouco satisfatórias. Creio que ela escolheu trabalhar nessa produção por ser um filme muito original, e com riqueza de conceito. É o tipo de filme a se debater com os amigos após o final e que envolve inúmeras teorias. Outro fator decisivo na escolha do longa, por ter sido o fato de seu elenco ser
esmagadoramente feminino. Isso condiz com o seu posicionamento político a favor do protagonismo feminino em Hollywood, como já foi bem visto no último Globo de Ouro, onde ela ironizou ao mencionar a totalidade de concorrentes masculinos à prêmio de melhor diretor.

Com direção e roteiro de Alex Garland, o mesmo do suspense/ syfy, “Ex Machina”. Ele volta com mais um filme do gênero, que inova em ideia e abordagem do tema, embora no fim tenha deixado muitas coisas no ar, à livre interpretação do espectador. A NetFlix faz uma decisão acertada ao apostar nesse estilo de roteiro, depois de alguns fracassos de crítica no começo deste mesmo ano.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: