What Happened, Miss Simone?

Por Tom CP

 

“Senhorita Simone, você é idolatrada,
e até mesmo amada, por milhões agora.
Mas o que aconteceu, Senhorita Simone?”
(Maya Angelou)

A citação inicial do documentário, produzido e lançado pela plataforma Netflix, funciona de introdução para o longa, como qual em um livro, e instiga o espectador. Por que a carreira (e vida pessoal) de uma mulher tão talentosa, também amada, desceu ladeira abaixo, a levando para um lugar pior que suas sofridas origens? A vida da cantora afro-americana Nina Simone é destrinchada a partir dai, visando saciar a pergunta levantada antes mesmo da citação da escritora Maya Angelou.

Nina 01

Nina Simone começou cedo no mundo da música. Sua carreira tem berço muito antes dela adotar o nome de Nina Simone. A pequena Eunice Kathleen Waymon acompanhava a mãe na igreja e aprendeu a tocar piano por volta dos cinco anos. Habilidosa, ela passou a tomar aulas de piano com uma das patroas da mãe, uma mulher branca, residente no ‘lado branco da cidade’. Eunice fora instruída a ser uma grande pianista clássica. Aprendeu a disciplina e educação, de onde nasceria toda sua rigidez no palco anos mais tarde. Foi nessa mesma época que a menina também começou a experimentar do preconceito racial. Em suas caminhadas até a casa de sua professora de piano, Eunice tinha de passar pela população branca da cidade, os quais a faziam perceber com o olhar que ela não pertencia àquele lugar. Eunice não se sentia parte de onde vinha também e já logo cedo era uma alma perdida.

A criança cresceu e foi para Filadélfia tentar uma bolsa de estudo no conceituado Instituto de Música Curtis. Mesmo extremamente qualificada e já quase certo de receber a bolsa, Eunice não foi admitida no instituto por sua cor de pele. A família dela se mudou toda para a cidade, a fim de ficar mais próxima da jovem, porém, eles eram pobres e não podiam dar tanto suporte. Isso fez com que Eunice arranjasse um emprego em um clube noturno, onde passou a tocar e cantar músicas totalmente diferentes das que estava acostumada. O Jazz e o Blues fizeram Eunice adotar o nome Nina Simone para que sua mãe não soubesse de sua nova performance musical e foi a partir dai que ela iniciou sua subida para fama, mas também foi naquele lugar onde Nina conheceu o marido e agente, um homem ríspido, violento, que apesar de tudo, a amava e a ajudou a se erguer profissionalmente.

Nina 02

O sucesso veio aos poucos e quando qualquer outra pessoa estaria satisfeita e feliz com a fama e a riqueza, Nina estava no meio do caminho entre o lado dos negros e dos brancos outra vez. A cantora sentia falta de algo. Esse vazio foi preenchido quando a mulher percebeu uma função social para as letras de suas canções. Nina Simone começou a defender os direitos dos negros com a única arma que ela possuía. Ela era forte, feroz, audaciosa e essa mudança em sua carreira teve sim consequências positivas para o objetivo que ela procurava, no entanto foi de contramão com sua carreira. Muitos boicotaram a cantora, com medo das críticas pesadas que ela fazia em seus shows e quando a situação dos negros ficou tensa nos Estados Unidos (inclusive ocorre nesse momento um crossover com o filme indicado ao Oscar em 2015, Selma, e é emocionante), Nina deixou de ser uma cantora comum e passou a ser mais uma negra lutando por seu direito. Ela sentiu logo de imediato o que havia feito com sua carreira. Enquanto outras artistas negras, como Aretha Franklin, eram convidadas a participar de programas de auditório, Nina Simone ia aos poucos perdendo o prestígio como cantora. Mas o que teria sido da história americana sem a escolha dessa brava mulher? Ela sabia que tinha optado pelo caminho mais difícil e em momento algum desviou da estrada para voltar a ter uma vida luxuosa e confortável.

Nina 03

No momento em que optou por abrir mão de uma carreira musical comportada em favor da luta pelos negros, Nina não sabia que uma se confundia com a outra. Sua própria história de vida e ascensão à fama foi uma luta contra um mundo que diminuía, massacrava e humilhava os negros e quando toda aquela guerra passou e a luta deixou de ser um problema claro e objetivo, a vida da senhorita Simone voltou a perder os acordes e as cores. Em sua cabeça não havia mais sentido cantar. Ela não se sentia ela mesma, nem seu nome verdadeiro ela podia usar. Abatida, Nina deixou a América e foi viver na África por anos, até que finalmente percebeu o que as pessoas fazem quando vencem uma guerra. Elas curtem sua vitória e o troféu de Nina foi um reconhecimento que nunca se apagou no coração de seus fãs.

Nina 04

Depois de tudo o que vivenciou, fez e viu, Nina se encontrou em uma época na qual ela não se encaixava mais. Ela era de outro tempo, mas dobrava o ambiente ao seu redor para que o tal se encaixasse nela. E não foi sempre assim? A cantora sempre fez o que sentiu vontade, mesmo que isso a fizesse destruir sua carreira, se distanciar de sua família e fazer alguns inimigos. Depois de acompanhar toda essa jornada, se torna fácil encontrar a resposta para a questão levantada 1 hora e quase 50 minutos antes. Mas a pergunta que resta é se Nina Simone teria feito tudo aquilo de novo? Ela mesma responde no desfecho em uma tocante entrevista.

Talvez tenha faltado sim um pouco de emoção na construção do filme, pois para uma mulher do calibre de Eunice, era necessário um documentário com mais força e emoção, no entanto, a grandiosidade dos fatos expostos constrói por si só um grande filme.

 

Nota: 9/10

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