“VOX LUX – O PREÇO DA FAMA” (2018): AINDA QUE IRREGULAR, LONGA É SURPREENDENTE E ENTREGA BELA ATUAÇÃO DE NATALIE PORTMAN

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POR EDUARDO PEPE

De cara, pode parecer que “Vox Lux” é um filme sobre o nascer e os tormentos de uma diva pop. E o longa dirigido pelo ator Brady Corbert, até certo ponto, é isso, mas opta por caminhos bem mais estranhos e obscuros do que essa temática sugere. Dividido em três partes, acompanhamos Celeste (na fase adulta, feita por Natalie Portman), desde criança quando ela passa por situações inesperadas que te levam a emplacar um grande hit, passando pela adolescência se confirmando como cantora de sucesso, até o momento presente, em que ela adulta é uma cantora já totalmente tomada pela parte podre do meio artístico.

As três partes têm estilos e tons diferentes, o que torna a experiência um tanto irregular. A primeira parte, sublime, é magistralmente dirigida e tem uma sequência digna dos melhores suspenses. A segunda parte, mais vagarosa e melancólica, vêm para mostrar como foi a juventude da jovem estrela. A parte parece acabar um tanto abruptamente. Mas nada te prepara para a terceira parte. Esse momento é quando, finalmente, Natalie Portman entra em cena. Maior que as partes anteriores, essa conclusão da saga é banhada por um tom mais teatral, com cenas que acompanham quase em tempo real o cotidiano da já consagrada diva pop. Entretanto, nem tudo é glória: a estrela está inundada em relações familiares complicadas, problemas psicológicos e dores do passado.

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Os conflitos, como o agente ganancioso, a filha problemática e a irmã que tem papel central na carreira da cantora, mas não recebe reconhecimento já foram vistos em dezenas de outros filmes, mas o roteiro dá uma abordagem autentica aos conflitos e os personagens não caem na caricatura, sobretudo, por causa dos atores. Jude Law rouba a cena como o agente que acompanha a cantora desde o início, Raffey Cassidy convence tanto como a protagonista na fase jovem como na pele da filha dela no tempo presente e Stacey Martin, no papel da irmã, está competente, mas é subaproveitada. Entretanto, o filme é mesmo de Natalie Portman, que brilha em mais uma personagem perturbada.

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A Celeste de Portman é uma personagem cheia de embates internos: exibida e esnobe, mas, ao mesmo tempo, insegura e dependente dos outros, que ela maltrata sempre que tem a chance. Ela, persona pública, é uma figura potente e dona de si. Ela, em sua intimidade, desaba e se descontrola por vezes. Portman sabe como lidar com esses antagonismos não tornando essas caraterísticas como incompatíveis, mas, sim, fazendo que a personagem a partir disso se torne mais humana e compreensível a partir desses antagonismos. O tom mais teatral do filme, em determinadas sequências de longos embates entre personagens, não parece um problema para Portman, que se mantém entregue e intensa. Para uma atriz contida como ela, mesmo os excessos de uma diva, não lhe parece desproporcionais ou fora do tom.

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A fotografia de Lol Crawley merece destaque por saber trabalhar os tons sombrios de forma a contribuir com o clima, sem falar nos belos planos-sequências que, na terceira parte, contribuem para a sensação acumulativa de estresse conforme vai se desenrolando o cotidiano da personagem. Havia grande expectativa para as músicas compostas pela cantora Sia para o filme, mas elas, praticamente, só aparecem com destaque apenas no final e se revelam propositalmente genéricas. A direção de Corbet mostra personalidade e muita energia, mas ainda lhe falta maior equilíbrio para conseguir fazer um filme mais redondo e bem-acabado. A narração em off feita pelo ator Willem Dafoe é interessante e tende ao macabro, mas o longa nunca parece se tornar tudo que a narração anuncia. O final, um tanto abrupto, pode decepcionar quem espera uma resolução mais completa de todos os conflitos, mas não se pode deixar de notar que o percurso até ali foi dos mais criativos e inesperados.

 

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