UNICÓRNIO: “SEGUNDO FILME DE DIRETOR ATESTA CAPRICHO ESTÉTICO, MAS ROTEIRO É SUFOCADO POR SIMBOLISMOS QUE POUCO DIZEM”

Em 2011, o diretor Eduardo Nunes lançou seu primeiro longa de ficção, “Sudoeste”. A fotografia em um preto e branco delicado e melancólico, a trama altamente simbólica e as belas atuações de atrizes do calibre de Simone Spoladore, Mariana Lima e Dira Paes fizeram o diretor ser apontado como um nome promissor. Seis anos depois, ele volta com um novo trabalho, igualmente simbólico, com atores de peso e uma fotografia belíssima. Entretanto, o resultado não tem o tom hipnótico do trabalho anterior.

Livremente baseado em poemas de Hilda Hilst, o filme acompanha uma criança (Bárbara Luiz) menina que mora numa pequena fazenda em algum lugar paradisíaco na zona sul do país. Ela se divide entre viver com a mãe (Patrícia Pillar), que tenta refazer a vida após o divórcio), e visitas a seu pai (Zé Carlos Machado), que vive aprisionado no que parece ser uma clínica psiquiátrica. O título pode ser entendido pela forma onírica que a garota tenta enxergar o mundo fugindo da realidade, apesar da dureza que se apresenta.

Bárbara Luiz: criança em meio a exuberantes paisagens do interior sulista

Apesar de abordar temas promissores, como o problema mental do pai e o amadurecer da jovem, e do diretor mostrar um olhar diferenciado usando, inclusive, um momento de animação para ilustrar uma história contada em cena, o filme parece não ir a lugar nenhum. Entre repetidas visitas ao pai que não vão muito além de frases de efeito e histórias soltas e o cotidiano de tarefas domésticas, sobra pouca coisa além da beleza visual.

No quesito estético, o filme é exuberante com cores saturadas, diferenças bem marcadas entre espaços abertos e fechados e paisagens lindíssimas, além de uma construção minuciosa de figurino. Fora isso, há um trabalho esforçado de Zé Carlos Machado e da jovem protagonista. Por outro lado, Patrícia Pillar não tem material digno a trabalhar e se limita em ser doce e carismática como de hábito. O personagem de Lee Taylor, por sua vez, parece ter sido cortado na edição, porque sua presença só se justifica mesmo em sua cena final.

Zé Carlos Machado e Bárbara Luiz: amor de pai e filha

O grande demérito deve-se ao roteiro que parece se contentar em insinuar alguns temas inicialmente e acaba nunca de fato os desenvolvendo de fato. Acaba se limitando a momentos cotidianos e histórias contadas pelos personagens de pretensão simbólica, mas que pouco dizem. Para piorar, as atitudes tomadas pela protagonista lá pelo final parecem surgir de forma um tanto abrupta sendo incompreensível porque se perdeu tanto tempo com questões banais e pouco se desenvolveu as questões psicológicas da personagem principal.

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