RODA GIGANTE (2017): “APESAR DE RESULTADO PRÓXIMO DE SEU LUGAR COMUM, WOODY ALLEN DESSA VEZ, BUSCA INSPIRAÇÃO NO TEATRO”

Por Eduardo Pepe

 

 

Há 40 anos fazendo um filme por ano, o diretor e roteirista Woody Allen naturalmente construiu uma carreira com irregularidades no caminho. Com uma produção tão constante é óbvio que nem sempre serão filmes memoráveis, mas existe uma máxima comum de se ouvir entre os cinéfilos: “Um filme médio do Woody Allen ainda é melhor que a maioria dos filmes em cartaz”. E isso até certo ponto é verdade.

Elementos típicos do diretor estão presentes como de costume; trilha sonora banhada a jazz, personagens neuróticos, diálogos rápidos com referências a artistas e intelectuais, um triângulo amoroso e um personagem-narrador. Mas, dessa vez, há duas diferenças notáveis. A primeira delas é a maior teatralidade da construção do roteiro. Entre os personagens centrais está o personagem de Justin Timberlake, um salva-vidas que sonha em ser escritor. Ele é fascinado por teatro e em várias cenas cita um dramaturgo ou uma peça. O teatro parece existir no filme mais do que como mera referencia em um diálogo ou outro. Aqui, o tom, por vezes, se assemelha ao de uma peça de teatro. O final, por exemplo, é praticamente todo ambientado na sala de estar da casa dos protagonistas e se discorre por embates entre dois personagens por vez. Nesse momento, os atores saem e entram em cena remetendo a linguagem cênica do teatro.

@Imagem Filmes

Possivelmente buscando impedir a linguagem do “teatro filmado”, Woody Allen enveredou por um esmero visual que não é comum em seus filmes. Ele já havia trabalhado com uma estética mais rebuscada em seu filme anterior, “Café Society” (2016), também com o mesmo diretor de fotografia Vittorio Storaro, mas aqui o esmero visual é ainda maior. As cores por vezes são saturadas e uma cor domina o ambiente para a partir de uma mudança de iluminação a cor predominante mudar gradativamente, tudo isso muitas vezes em um mesmo enquadramento. O diretor também usa recursos de filmagem que não são do seu feitio: muito zoom e câmera seguindo os atores dentro das cenas em ambientes fechados. Esses recursos, apesar de darem uma linguagem mais cinematográfica ao filme, por vezes, parecem tornar as coisas menos naturais, deixando algumas cenas mais engessados justamente por chamarem mais atenção para si do que por exercer uma função na narrativa.

O roteiro, por sua vez, lembra elementos da história do clássico do próprio diretor “O Rosa Púrpura do Cairo” (1985), que também gira em torno de uma mulher deprimida e presa em um relacionamento abusivo por questões financeiras. Assim como a protagonista do filme de Allen de 1985, a personagem de Kate Winslet vê no cinema, no entretenimento e na descoberta da paixão formas de fuga da realidade. Por outro lado, a protagonista defendida por Kate Winslet lembra muito a Jasmine que Cate Blanchet interpreta em “Blue Jasmine” (2013), outro filme do diretor.

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Em seus melhores momentos, “Roda Gigante” foca no drama pessoal da personagem de Winslet. Sua Ginny é uma mulher infeliz com sua vida e que se agarra num caso extraconjugal como solução de seus problemas. As sub tramas, como a do filho problemático e a enteada perseguida por gângsters, não chegam a ser tão exploradas para renderem de total bom grado. Os atores coadjuvantes, que incluem Justin Timberlake e Juno Temple, têm atuações competentes, mas pouco espaço para desenvolverem com mais complexidade seus personagens.

No geral, é uma experiência irregular. O roteiro nem sempre consegue ornar todas as suas pretensões de misturar a linguagem do teatro com a do cinema e de equilibrar a trama central com as que estão por volta da personagem central. Entretanto, os bons diálogos típicos do diretor, a bela fotografia, o elenco sólido e a atuação encorpada de Kate Winslet contam a favor.

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