O PROCESSO (2018): ACOMPANHA O COTIDIANO CAÓTICO NO SENADO FEDERAL DURANTE O PROCESSO DE IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF

Por Eduardo Pepe

 

Documentário acompanha cotidiano caótico no senado federal durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff

 

A diretora Maria Augusta Ramos e sua equipe tiveram passe livre no senado federal durante os meses do processo de impeachment da ex-presidente Dilma. Depois de filmes como “Juízo” (2007), sobre menores infratores, e “Justiça” (2004), que acompanha o cotidiano de um tribunal brasileiro, Maria Augusta parte para uma temática ainda mais política. O longa capta não só as conhecidas sessões públicas, como também seus bastidores, incluindoconversas informais e reuniões de estratégia da defesa.

Todos os principais personagens do processo ganham destaque no registro da diretora, em especial, o advogado de defesa José Eduardo Cardoso, a advogada de acusação Janaína Paschoal, o ex-líder da câmera dos deputados Eduardo Cunha, do MDB, e os senadores petistas GleisiHoffmann e Lindbergh Farias. Chama atenção sobretudo a presença cheia de eloquência cênica de Janaína, a única que grita, chora e se descabela.

@Foto Divulgação

     O documentário não se finge de imparcial. Como diz o jornalista Sérgio Augusto, “Imparcial, só com a câmera desligada”. Se tratando de um assunto político tão recente, essa frase ganha ainda mais sentido, porque certamenteuma abordagem que tentasse não ter um ponto de vista claro cairia para uma obra chapa branca com cara de um programa qualquer da TV Senado.

“O Processo” é história e política, claro, mas também é cinema. O formato escolhido, sem entrevistas ou narração, é dos mais ousados e surpreendentementefuncionou. A narrativa é o cotidiano no senado e a única inserção dramática explícita é a pontual presença de letreiros que situam informações básicas, como datas, etapas do processo e decisões jurídicas. Esse formato esquiva o tom panfletário, que seria o rumo mais fácil de uma obra sobre o assunto.

@Foto Divulgação “O Processo”

Vale destacar também a coesão e a síntese narrativa.O tema do documentário não é briga partidária ou a operação Lava-Jato, então o longa acerta ao fechar o cercono senado tendo apenas ocasionais reportagens televisivas que envolvam personagens importantes na narrativa. Também há um período retratado bem demarcado: o longa se inicia com a votação na câmara dos deputados e vai atéo discurso de saída da ex-presidente.

O resultado é um documentário que resume todos os principais fatos para qualquer pessoa, mesmo quem nem saiba nada sobre a política brasileira, sem abrir mão de ser relevante e não soar redundante para quem acompanhou os acontecimentos registrados. É um caso raro e hibrido de filme histórico-contemporâneo ao ser, invariavelmente, um documento de um marco na história do Brasil, mas que aborda questões que estão intimamente relacionadas com os problemas e conflitos do país de hoje. A atual lógica de bipolaridade política que assola o Brasil infelizmente vai fazer com o filme, assim como aconteceu com o longa “Aquarius” (2016) e mais recentemente com a série “O Mecanismo” (2018), ser resumido a narrativa de Fla X Flu, mas “O Processo” é válido como base para infinitas discursões independente de posicionamento político.      

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