O Homem Duplicado: A Anatomia do Filme

Atenção, o material a seguir explica, sob o ponto de vista do escritor, o filme em questão. Portanto contém SPOILERS.

 

Por Tom

cena 1

Adaptação do romance de José Saramago, ‘O Homem Duplicado’ é um filme complexo, pois exige que espectador seja muito mais que apenas isso. É necessário se levantar do posto costumeiramente ocupado e adotar uma postura mais ativa, para decifrar e interpretar cada detalhe que o longa expõe. Chega a ser quase um trabalho de detetive e nenhum ínfimo detalhe está alocado na história e nas locações de forma ocasional. Tudo tem sua razão e explicação.

cena 2A história se respalda em referências sociológicas e até mesmo musicais e cinematográficas para transmitir o que realmente tem a intenção. Isso de maneira alguma é claro e óbvio. É preciso ter uma bagagem para entender as propostas levantadas ali e, mais que isso, saber identificar cada peça na história como uma peça importante do quebra-cabeça. Todo esse jogo de ideias, que brinca de esconde-esconde no filme, é mérito quase que inteiro do diretor Denis Villeneuve, o qual cria uma atmosfera tensa e intrigante, fazendo o espectador ansiar por uma resposta a cada cena. O talentoso diretor, que também dirigiu o ótimo Os Suspeitos e o surpreendente Incêndios, sem dúvida merece ter sua obra acompanhada de perto. É bom ficar de olho em seus demais trabalhos.cena 3

A história acompanha Adam, um professor que vive em uma monótona rotina. Tudo muda quando ele recebe uma indicação de filme de um colega de trabalho. O homem acaba alugando o filme e o assiste, descobrindo algo curioso na fita. Um dos atores era idêntico a ele. Assustado e ao mesmo tempo curioso, Adam busca pelo homem na internet e descobre seu nome, Anthony. Sua curiosidade o faz procurar pelo ator.

cena 4Esse encontro entre os dois cria um verdadeiro caos. Porém, a tempestade surge apenas dentro da cabeça do próprio Adam. Esse homem duplicado coexiste com Adam e dentro de Adam. Na realidade, Anthony representa o lado mau do professor, que insistia na carreia de ator, mesmo depois dela não ter dado certo, além disso, o homem tinha uma compulsão por sexo, o que poderia justificar seu enorme medo em assumir compromissos e trair sua companheira. Essas características duelam com o lado bom de Adam, que possuía um emprego estável, e, mesmo com alguns problemas (como sua mania por controle), ele era um homem bondoso.cena 5

Portanto, no momento em que Adam ‘descobre’ a existência do ator, ele tem seus dois lados em guerra dentro de sua própria mente. A partir dai, fica nítido que o professor sofria de algum distúrbio psicológico. O final, chocante e surpreendente, vem através daquela enorme aranha mostrar que após Adam ter se livrado de seu lado mau, no acidente fictício em sua mente, e ter encontrado a chave para o clube de sexo, todo o processo estava se repetindo como ele mesmo cita no início do filme, em uma aula. “As coisas são um ciclo e se repetem duas vezes… a primeira vez é uma tragédia e a segunda uma farsa cômica”. Então após abrir a carta, com a chave dentro, Adam volta a cair na tentação de trair a mulher, por medo de comprometimento com ela e com a família que eles estavam gerando. Talvez isso represente a ressureição de Anthony. Já a aranha cabulosa que surge no final, traduz simbologicamente o sexo feminino, sendo aquela no quarto a própria esposa, a qual, assim como a aranha na cena inicial que está prestes a ser esmagada, temia ser esmagada pelo marido, temia que seu relacionamento fosse extinto.

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