MALÉVOLA: DONA DO MAL (2019) “A DIVA JOLIE FLERTA COM GAME OF THRONES…”

por Alexandre César

Fruto da roteirista Linda Woolverton (que roteirizou os remakes de Alice, A Bela e a Fera, e O Rei Leão original), Malévola (2014) de Robert Stromberg reinterpretou a história clássica da Bela Adormecida tirando o peso do nome da protagonista como determinante de seu caráter*, ficando este apenas por sua sonoridade, como se fosse um nome como outro qualquer e, aliando de forma sutil a questão da pauta feminista às relações da cultura cristã e patriarcal que reescreve e se apropria de narrativas de origem pagã, definindo quem é bom ou mal ao seu gosto.

Em que pese uma série de falhas estruturais do roteiro, seus ótimos valores de produção e sobretudo o carisma de sua protagonista Angelina Jolie, cuja entrega ao papel, garantiram o sucesso, mostrando a toda uma geração de meninas que uma mulher, se for confiante de seu valor, pode seguir o seu caminho superando problemas como violência, e outros obstáculos colocados em seu caminho, sem ter de se sujeitar à vontade de um homem (a cena em que Stefan corta as suas asas, após lhe dar um “boa noite cinderela” é uma ótima alegoria não só do estupro, como da mutilação genital praticada em muitos países islâmicos) e seguir em frente não tendo vergonha dos seus chifres, simbolizando o seu orgulho e independência.

Parte da crítica e do público fundamentalista detestou, mas o sucesso, e seus U$ 758,5 milhões de bilheteria garantiram a continuação de uma história que parecia fechada… ou não?

Dirigido por Joachim Rønning (Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar de 2017 e Expedição Kon Tiki de 2012, ambos com Espen Sandberg) Malévola: Dona do Mal (2019) traz novamente Angelina Jolie, cada vez mais diva e segura de si, ao papel que consagrou, colocando a bela e exótica anti-heroína face a questões como a imposição da submissão da mulher à sociedade, o avanço do reacionarismo, a intolerância a até, as fake news que espalham o medo entre os povos, dividindo-os para depois, conquistá-los, tudo dentro da formatação Disney para não chocar demais, mas a alegoria está lá, olhe com atenção espectador e verá…

 

                     DIVULGAÇÃ[email protected] DISNEY PICTURES

 

No roteiro de Woolverton (reescrito por Jez Butterworth em colaboração com Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster), passados cindo anos, a lenda da Bela Adormecida se espalhou por todos os reinos e apesar da redenção pessoal de Malévola, ela continua a ser retratada como uma bruxa maligna, indigna de simpatia, misteriosamente… A Princesa Aurora (Elle Fanning, fofa e cativante) regente do reino mágico de Mohrs é pedida em casamento pelo Príncipe Felipe (Harris Dickinson, substituindo Brenton Thwaites) aceitando finalmente, para preocupação da super-protetora madrinha, por ainda não confiar plenamente nos humanos. Os regentes do reino vizinho, pais do noivo são o bonachão Rei John (Robert Lindsay) e a bela e ambiciosa Rainha Ingrith (Michelle Pfeifer, digna de Game of Thrones ) que não vê a hora de por as mãos nas terras e recursos de Mohrs, depois é claro, de se livrar de todos as fadas e os incômodos, “povos da floresta”… Familiar não???

Auxiliada pelo fiel escudeiro Diávolo (Sam Riley) Malévola tenta polir seu trato social para causar um boa impressão na corte do noivo. Durante o jantar de apresentação, fica evidente o conflito iminente entre as duas casas, refletidos nos impecáveis trajes, atestando aqui a competência da figurinista Ellen Mirojnick (O Rei do Show, Minha Vida com Liberace) que captam o luxo e ostentação demodê da nobreza, em contraste com a elegância sóbria e despojada dos povos mágicos. Apesar de seu esforço, tudo dá errado, colocando Malévola contra Aurora, e incriminando-a em um atentado para logo em seguida ser ferida em fuga, e depois ser resgatada inconsciente e levada a descobrir o santuário do seu povo, que há muito ela julgava perdido.

Surge aqui uma interessantíssima adição à mitologia da personagem, que esperamos ser futuramente mais expandida: Os auto intitulados “Filhos das Trevas”, liderados pelo pacífico Conall (Chiwetel Ejiofor de O Rei Leão e Doutor Estranho) se constituem uma união de seres alados de várias partes do mundo, com grande diversidade racial nos traços, cor de pele, olhos, cabelos e chifres, que foram se afastando à medida que os reinos dos homens cresciam e se expandiam. Aqui devemos ressaltar o incrível trabalho do Design de Produção de Patrick Tatopoulos (Liga da Justiça, Eu, Robô) e da equipe de direção de arte e de caracterização dos personagens, bastante similares em termos de estrutura social aos Navh`is de Avatar (2009) de James Cameron, e tendo um ”quê” de O Paraíso Perdido de John Milton, pois estes seres alados tem o seu refúgio numa grande caverna subterrânea, parecendo uma reinterpretação do conceito de “anjos caídos”, temperados com um apelo inclusivo.

 

                         DIVULGAÇÃ[email protected] DISNEY PICTURES

 

Aurora é acolhida pela futura sogra, e vai se submetendo às imposições dela para se tornar uma “bela e recatada do lar”, até chegar o ponto de descobrir as maquinações da Rainha, cuja corrida armamentista e a campanha de caluniar a reputação de Malévola tem como objetivo dominar o reino de Mohrs, com direito inclusive a uma paródia (mais branda é claro…) do ”casamento vermelho” de Game of Thrones. Obviamente Malévola recupera sua força e há uma grande batalha entre os homens e sua tecnologia bélica e os “Seres das Trevas” alados e, tendo ao final a vitória das forças da justiça e do entendimento, culminando no casamento de Felipe e Aurora , fundindo os reinos e estabelecendo a convivência pacífica dos povos (é Disney ora!).

Embora Jolie domine o espetáculo (sendo uma das produtoras) plenamente, fazendo com Malévola a mesma coisa que Robert Downey Jr. Fêz com o Homem de Ferro (tornando a personagem indissociável da intérprete), o trabalho do elenco é eficiente, embora tenhamos muitos mais personagens agora, sendo mais presenças físicas do que arcos narrativos próprios, já que o foco está na construção da relação Malévola-Aurora, da mãe que tem de reconhecer que a filha vai sair de casa para se tornar mulher e dos medos decorrentes deste momento, quando muitas vezes os filhos dão as costas para os pais. Os personagens falam e fazem o que o roteiro pede de forma básica, sendo assim, Felipe é o príncipe galante de boa índole numa mostra de masculinidade gentil, Diávolo, tendo menos tempo em cena do que no filme anterior, continua sendo o equivalente ao amigo gay da heroína, caso estivéssemos numa comédia de Julia Roberts ou Sandra Bullock, da mesma forma o trio das fadas atrapalhadas Flittle (Lesley Manville), Thistlewit (Juno Temple) e Knotgrass (Imelda Stauton) são meros alívios cômicos, o Rei John é um bom regente que contrasta com a sua ambiciosa esposa (cujas intrigas correndo debaixo do nariz dele…), outros personagens pediam maior desenvolvimento como Gerda (Jenn Murray) a fiel escudeira da rainha, cujo visual andrógino lembra Tilda Swinton em Orlando, A Mulher Imortal (1992) de Sally Potter ou Borra (Ed Skrein de Alita: Anjo de Combate e Deadpool) o impetuoso guerreiro alado com toques de William Wallace de Coração Valente (1995) de Mel Gibson cujas trocadas rápidas de olhar sugerem que futuramente, havendo um terceiro filme, poderá haver match para a solitária Malévola…

 

                             DIVULGAÇÃ[email protected] DISNEY PICTURES

 

A música de Geoff Zanelli (Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar) flui bem, e a fotografia de Henry Brahan (Guardiões da Galáxia Vol. 2, A Lenda de Tarzan ) valoriza em belos closes a beleza de suas atrizes e seus ambientes, a edição de Laura Jennings (No Limite do Amanhã, 007 – Operação Skyfall ) e Craig Wood (Homem-Formiga e a Vespa, A Grande Muralha) acertam o ritmo das cenas de ação, cujos efeitos visuais da Moving Piture Conpany e da Mill Film mostram bem a diferença de combate entre um povo avançado em tecnologia bélica e estratégia e de outro que guerreia de forma instintiva, ainda que com maior força física e capacidade de vôo.

Ao final, entre erros e acertos podemos afirmar sem sombra de dúvida, que se a Marvel e a DC têm cada qual o seu panteão de super-heroínas, a Disney tem a Malévola, e está no caminho certo!!!

*: Malévola: Feminino de malévolo (Que possui uma péssima índole; que é mau; malvado. Que causa o mal a alguém; que tende a ser pernicioso;…) . O mesmo que: maia, perversa, malvada, maldosa, maléfica, malfazeja, maliciosa. Que possui… adj. (do dicionário online de Português)

 

                            DIVULGAÇÃ[email protected] DISNEY PICTURES

 

 

 

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: