Gloria Bell (2018): “Vivendo uma mulher cheia de vida, Julianne Moore brilha em papel fora da curva”

Por Eduardo Pepe

Sebastián Lelio. Grave esse nome se você ainda não reparou nele, porque esse diretor chileno vem se consagrando a cada trabalho como um dos melhores diretores da nova geração. E não só da América Latina, o cineasta tem estofo global. O primeiro filme dele a destacar internacionalmente foi justamente “Glória” (2013), versão original feita no Chile de “Gloria Bell”. O longa entrou em competição no festival de Berlim e arrebatou a crítica com sua energia e espontaneidade ao tratar de uma mulher no auge dos seus 50 e poucos anos. Não era um filme de grandes estripulias narrativas ou visuais, era um grande filme simplesmente pela forma de lidar, com muita naturalidade, humor e sensibilidade, com essa personagem tão sub representadas no cinema. Mas Lelio não parou por ali.

@DIVULGAÇÃO Sony Pictures

Em 2017, gravou logo dois projetos; “Uma Mulher Fantástica”, em seu país, e “Desobediência”, sua primeira incursão em inglês, com Rachael McAdams e Rachel Weisz. O primeiro tornou-se o primeiro filme a levar um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para o Chile. E ainda que seu trabalho filmado na Inglaterra não tivesse toda a energia e força de seus trabalhos anteriores, conseguiu cumprir a expectativa ao entregar um drama romântico sólido, de temática ousada e recheado de boas atuações. O próximo passo dele era ainda mais difícil: realizar um remake de seu próprio sucesso.

Remakes, ainda mais remakes hollywoodianos de filmes de outros países, são sempre vistos com tensão. Há sempre o medo de serem retalhados e podados. Exemplos não faltam. O perigo é sempre a perda da essência do que fez a obra ser sucesso. Dirigido e escrito pelo próprio Lelio, ele reconta de forma extremamente fiel a história de Gloria, vivida com extrema garra por Paulina Garcia na versão original e aqui defendida pela grande Julianne Moore.

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Mas quem é essa Gloria? Essa pessoa tão comum, mas tão pouco representada no cinema. Pelo menos, sem ser uma figura folclórica tendendo a loucura ou a depressão. E é por isso a construção da personagem é genial. Genial simplesmente por ser normal: uma mulher com 50 e poucos anos, de classe media, divorciada, estabilizada no trabalho e que vai resolvendo seus problemas pessoais como pode. Ela também adora ir pra boates dançar músicas de sua juventude. Às vezes, ela tem certa vergonha de determinadas investidas, mas vai e vive. O filme a flagra em um momento que conhece um pretendente novo, Alfred (John Torturro), e também tem que lidar com os filhos que estão com seus próprios problemas. Não que eles queiram exatamente a ajuda dela, mas ela faz o que pode. O resto do elenco também tem outros nomes conhecidos, como Barbara Sukowa e Michael Cera.

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Outro passo significativo, além de manter o texto original e escalar bem o elenco, é o diretor mostrar a mesma garra, a mesma energia que tornou o trabalho original especial. E isso é extremamente difícil. Como não soar como reprodução mecânica de si mesmo? É uma tarefa árdua que o Lelio cumpre com exímia competência. Não há sinal de desconforto, de preguiça ou de falta de tato nessa nova embalagem. E a comunicação entre ele e a nova musa, Julianne Moore, parece estar em sintonia tão plena quanto foi com sua musa inicial. No papel, a consagrada atriz americana brilha. É uma personagem completamente tridimensional em que você sai do filme com a impressão que realmente conheceu essa mulher. E Julianne, uma atriz corajosa e sem esquivos, se joga. É uma composição sutil, discreta, mas explosiva nos detalhes, na empatia e na naturalidade. Toda a melancolia e, ao mesmo tempo, o humor que o filme emana vem, sobretudo, dela, da sua Gloria.

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Em um filme como esse é extremamente vital a total entrega da atriz, já que o longa, sem exatamente uma grande história ou pirotecnia visual, se ancora completamente nela. Não que o filme seja mal escrito, muito pelo o contrário, já que a construção realista e humana das situações e dos personagens impressiona, ou mal filmado; a direção de fotografia delicada trabalhe belamente ondulações de tom a partir do humor da personagem, sobretudo, em tons de lilás. E, sim, porque é um daqueles casos em que personagem/atriz e filme se confundem e, felizmente, se entrelaçam em uma daquelas sintonias que faz o bom cinema.

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