Desculpe o transtorno, preciso falar sobre Narcos

Desde a estréia de sua primeira temporada, muito tem se falado sobre a atuação e o sotaque do ator Wagner Moura, que interpreta o Pablo Escobar. E recentemente houveram boatos por trás do pronunciamento do filho do narcotraficante mais conhecido do mundo. Sebastián Marroquín, que inicialmente chamava-se Juan Pablo Escobar, aproveitou que a história do seu pai está em alta devido ao lançamento da segunda temporada de Narcos, que sua postagem também serviu como divulgação do seu livro, “Pablo Escobar – Meu Pai – As Histórias Que Não Deveríamos Saber,” o qual afirma conter “a verdade real” sobre Pablo Escobar.

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Nos é apresentado no inicio de cada episódio que a série é baseada em eventos reais, e de fato é. Como é possível ver no papel de Pinochet; a história da espada de Simón Bolívar e o grupo M19; Escobar e a política; a morte de políticos; a onda de sequestros; a rendição; como era a catedral e a fuga. Porém, é dito no mesmo anuncio que a realidade pode sofrer alterações de acordo com a trama e o enredo da história que foi escrito brilhantemente por José Padilha. Sofreu alterações? Sim. O que de forma alguma prejudicou o andamento da série. A trama aborda de uma maneira didática diversos conflitos políticos, policiais, civis, internacionais, terroristas e extremamente violentos que envolvem o tráfico de drogas. A ideia de Narcos é mostrar de forma realista e não tão glamourosa as origens e a ascensão de Pablo Escobar e do narcotráfico. Mas o interessante é que ao longo da trama também é possível ver a omissão do governo em relação ao assunto e como isso afetou a vida dos cidadãos colombianos. Na série, podemos ver até mesmo como os Estados Unidos e sua agência antidrogas (DEA) interferiram na Colômbia e na luta contra o narcotráfico da região. A abordagem sobre o tema da ascensão do narcotráfico moderno e o desenrolar da primeira temporada nos dão a entender que ainda há muita história real por vir.
Nem só de Zé Padilha e Wagner Moura é feita a participação brasileira em Narcos. A lista conta ainda com o ator André Matos, que atuou como o polêmico apresentador de TV/político de Tropa de Elite 2, interpretando Jorge Ochoa, contrabandista e um dos fundadores do Cartel de Medellín. E nem o tema de abertura de Narcos deixou de receber um toque verde e amarelo: a música “Tuyo” foi composta e gravada por Rodrigo Amarante, integrante da banda Los Hermanos.

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Apesar de ter Escobar como personagem central, a série não é uma biografia do narcotraficante, ele nem mesmo é o protagonista. A história é contada do ponto de vista do agente Murphy que mais parece um super-homem. Sozinho, com um revólver calibre 38, ele caça os impiedosos traficantes colombianos – que estão armados até os dentes com fuzis e lança-mísseis. Na caçada a Escobar, as ações só dão um pouco certo quando ele está envolvido. O exército, a polícia e os grupos especiais colombianos juntos não conseguem ser tão efetivos quanto o incrível agente americano. Mas talvez tudo isso fosse deixado de lado se o ator que representou o papel (Boyd Holbrook) não tivesse uma atuação tão fraca. Ele é o protagonista da série, o herói, mas eu não tive como não torcer pelo vilão Escobar. É exatamente isso que coloca em xeque o andamento de toda a série, a pouca proximidade que o protagonista cria com o público, é o Capitão América de Narcos. Ele vem de família “boa, branca e cristã”. Não trai a mulher e ainda adota uma criança. O maniqueísmo está feito: Murphy é o herói e Pablo, o vilão. E esse Pablo precisa morrer.
O que isso tudo quer dizer? Que sotaque não determina o êxito da interpretação, e sim o conjunto da construção do personagem. E aí o Wagner Moura arrebenta, em mais uma tabelinha com o José Padilha. De qualquer modo, não acho que seja ilegítimo ou besteira se incomodar com seu sotaque, também no Brasil e ainda mais na Colômbia. Cada cabeça uma sentença. Enquanto a controvérsia rola no país em que boa parte do público prefere filmes dublados, o Wagner Moura vai se consagrando, inclusive nos Estados Unidos. Vem aí uma promissora carreira internacional.

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Em suma: o problema de Narcos, não é o Moura, nem o seu sotaque.
Há vilões que eu não consigo odiar, e não foi diferente com Escobar. O desfecho de Pablo é transformado quase que em poesia quando a incrível montagem da série transforma atores nas pessoas reais na famosa foto tirada no telhado com o corpo do traficante. Rolou choro no momento da sua despedida? Sim. No entanto, o verdadeiro gancho deixado ao final da temporada é o que mais instiga – garantindo mais duas temporadas para a série e logo determinando seu tema. Vem aí o cartel de Cali.

 

Escrito por Ana Beatriz Valle

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