CRÍTICA: VERSÕES DE UM CRIME (2017)

Por Diogo Domiciano

Em seu longa de estreia (“Rio Congelado”, 2008), a diretora americana Courtney Hunt concebeu uma pequena obra independente de grande impacto. O drama pesado sobre imigração ilegal na fronteira entre Canadá e Estados Unidos retratava de forma crua e tocante uma realidade de miséria social e, ao mesmo tempo, conseguia construir situações de grande tensão que permitiam ao espectador se importar com as personagens. O filme foi destaque em vários festivais, saiu vencedor do prêmio do júri em Sundance e foi indicado a dois Oscar: melhor roteiro original e melhor atriz para Melissa Leo.Após um hiato de quase nove anos, a diretora volta com um novo filme completamente diferente: um suspense de tribunal burocrático e pouco inspirado.

Contando com um elenco de grandes estrelas hollywoodianas,“Versões De Um Crime (2016)” (The WholeTruth, no título original) conta a luta do advogado Richard Ramsey (Keanu Reeves) para defender o adolescente Mike Lassiter(Gabriel Basso),que confessou ter assassinado o próprio pai,BooneLassiter(Jim Belushi), um rico e (também) advogado. Porém, o rapaz se recusa a falar sobre o motivo do crime.Contando com a ajuda deJanelle Brady (Gugu Mbatha-Raw), uma advogada inexperiente, ele precisa desvendar o caso apesar do silêncio do réu.  À medida que a história avança, descobrimos que existe também um drama familiar dentro do caso e que envolve Loretta Lassiter (Renée Zellweger), a mãe do rapaz.

O filme alterna entre cenas do julgamento e flashbacks dos acontecimentos anteriores ao crime, embalados por uma narração em off do advogado Ramsey. Aqui, esta ferramenta soa artificial e entrega mais do que o necessário, antecipando pensamentos e atitudes que ficariam mais interessantes se fossem apenas mostrados nas ações dos personagens.

O roteiro insere algumas situações que parecem querer analisar os bastidores da justiça criminal, mas que, de tão fantasiosas, gratuitas e rasas, não funcionam nem como um estudo crítico das engrenagens do sistema judiciário,nem acrescentam elementos interessantes para dar profundidade aos personagens ou fazer a história andar. Por exemplo, em certo momento, vemos um legista ocultar provas físicas importantes para “facilitar” o trabalho do júri. Já em outra cena, uma testemunha mente no tribunal alegando ter defendido a esposa da vítima em uma situação de violência doméstica. Em nenhuma das situações as motivações das personagens ficam claras.

A direção não traz inovação e o elenco também não faz muito esforço. Keanu Reeves surge com sua apatia habitual (ele já foi um advogadomelhor, ao lado de Al Pacino, em“Advogado do Diabo”, 1997).Renée Zellweger soa tão artificial quanto seu rosto totalmente deformado pelos procedimentos estéticos. O único destaque fica por conta de Gugu Mbatha-Raw, que se esforça no papel da advogada auxiliar de Ramsey.

Quando chegamos à grande reviravolta (e lá se foram mais de 1h30m de filme), há mais um problema: além de o plot twistser completamente absurdo, também contradiz tudo que a narração em off havia sugerido até então, tornando a lógica do roteiro completamente inverossímil.

No final das contas, “Versões De Um Crime” é um drama de tribunal preguiçoso e nada original que parece ter sido realizado no piloto automático. Esperamos que a diretora Courtney Hunt não demore a nos trazer algo digno do talento demonstrado em seu longa de estreia.


Diogo Domiciano

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