CRÍTICA: UNA (2017)

Por Diogo Domiciano

 

‘O filme é interessante ao retratar essa complexidade de sentimentos, tão humana mas seu impacto fica minimizado por algumas escolhas equivocadas e pela origem teatral do material nas mãos de um diretor pouco experiente.’

Una, interpretada por Rooney Mara, vai até a construtora em que trabalha Ray, agora nomeado Peter (Ben Mendelsohn), para confrontá-lo. Ray é o homem com quem ela teve um caso quando tinha 13 anos. Ambos tiveram suas vidas aniquiladas e o filme narra o embate verbal e psicológico dos dois personagens, 15 anos após o ocorrido. Ray foi condenado à prisão por pedofilia e tenta reconstruir sua vida em um casamento e emprego estáveis. Una transformou-se em uma jovem atormentada pelo passado, cuja vida parece estar estagnada pelo trauma emocional.

Esta é a sinopse de Una, longa do diretor estreante Benedict Andrews e baseado na peça Blackbird, escrita por David Harrower. E aí já está a principal limitação do filme: é aquele tipo de trabalho cinematográfico que parece, durante boa parte da projeção, teatro filmado. Os dois primeiros atos da história se passam dentro da construtora onde Ray trabalha. Ele e Una confrontam-se verbalmente dentro de diferentes espaços do local (sala de reuniões, banheiro, etc), em um jogo de cena muito artificial e pouco convincente. Além dos dois protagonistas, os personagens secundários não têm muito a fazer na história, a não ser tentar torná-la menos teatral, o que não funciona. Um ator interessante como Riz Ahmed, que interpreta um colega de trabalho de Ray/Peter, é totalmente desperdiçado em um papel sem importância e que nada acrescenta à trama de forma significativa.

O diretor tem bons momentos, como ao utilizar algumas alegorias por repetição para representar o sufocamento e a prisão psíquica em que vivem ambos os personagens, filmando-os em ambientes opressores (atrás de grades, janelas de vidro, longos corredores labirínticos cercados por estantes gigantes). Entretanto, isso não é suficiente para compensar a afetação dos dois primeiros atos.

O elenco é competente, com destaque para Ben Mendelsohn (conhecido pela ótima série da Netflix, Bloodline), que consegue, com um olhar de tristeza e um tom de voz melancólico, adicionar camadas complexas a um homem que poderia ser visto apenas como um criminoso pedófilo sem escrúpulos. Rooney Mara é competente ao imprimir inquietação emocional e certo desejo de vingança a uma mulher que parece ter nada a perder. Claro que o texto contundente do autor da peça auxilia muito na construção dos personagens, que vão sendo desvendados aos poucos.

O longa não julga ou aponta o dedo, e sim mostra duas personalidades multifacetadas, vítimas de uma relação perturbada e perturbadora, que não podem ser resumidas simplesmente a criança e pedófilo, vítima e criminoso. Nada é simples e o texto deixa isto muito claro. Alguns até consideraram que o filme romantizam a pedofilia, o que é compreensível. Entretanto, é inegável que o roteiro é inteligente ao abordar o tema sem maniqueísmo e ao deixar o espectador refletir e questionar seus sobre seus próprios julgamentos.

O filme é incômodo ao apresentar o pedófilo como um ser humano com sentimentos, que foi movido pelo que parece ser carinho e paixão verdadeiros. Mas, no final das contas, o que ele nos mostra é que um amor assim é destrutivo de forma irremediável, e é responsabilidade do adulto pensar nas consequências devastadoras para a parte mais fraca da relação, obviamente a criança/adolescente, e não levar a situação adiante. Embora reconheçamos a humanidade de Ray, não há como perdoá-lo.
Assim, o filme é interessante ao retratar essa complexidade de sentimentos, tão humana, mas seu impacto fica minimizado por algumas escolhas equivocadas e pela origem teatral do material nas mãos de um diretor pouco experiente.

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Autor do Texto:

DIOGO DOMICIANO

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