CRÍTICA: TINHA QUE SER ELE? (2017)

Por Guilherme Zirbel

Quando o assunto é “filme de comédia”, a plateia se une. Pode não ser o gênero preferido da maioria, mas é quase nula a existência de alguém que nunca viu um filme tão engraçado que ficou marcado na memória – e, obviamente, tenha indicado para outras pessoas. Entretanto, quando acabamos de assistir “Tinha Que Ser Ele?” (“WhyHim?”, 2016), que estreou essa semana no circuito nacional, não é bem isso que acontece.

A história se desenrola a partir de uma visita que Ned (Bryan Cranston, o eterno Walter White de “BreakingBad”) decide fazer à filha Stephanie (ZoeyDeutch) na Califórnia, com o objetivo de conhecer o novo namorado dela, Laird (James Franco) que ele nunca tinha ouvido falar. A viagem é objetivada por Ned achar que o pretendente da filha é um zero à esquerda desrespeitoso e estupidamente idiota (a primeira cena evidencia muito bem isso). Então, ele parte de Michigan, de mala e cuia, e leva o filho adolescenteScotty (Griffin Gluck)e a esposa, Barbara (Megan Mullally), uma professora de arte e fotografia. Quando chega à casa do cunhado, o espanto da plateia é igual ao dele: Laird é milionário, dono de uma empresa de tecnologia de games e Stephanye está perdidamente apaixonada por ele.

A partir daí, o que já havia sido pincelado é, de uma vez por todas, escancarado. Laird se mostra um perfeito ogro, que cospe palavrões e obscenidades a cada passo que dá e se torna, automaticamente, um risco à “tão bem” estruturada família de Ned. Como resolver o embate, entre a filha apaixonada, que quer aprovação dos pais, e do pai, que quer solidez para a filha? É neste “dilema” que “Tinha Que Ser Ele?” se desenvolve, porém nunca de forma corajosa ou inovadora.

James Franco interpretaLaird de maneira carismática e natural, mas não passa nenhum tipo de firmeza na atuação: parece que o ator saiu de casa, entrou no set por engano e está simplesmente reprisando o que ele parece ser na vida real. Já Bryan Cranstonsurge um pouco desconfortável em cena. Depois de anos liderando uma série dramática aclamada por público e crítica, papeis diferenciados têm vindo até ele (como no ótimo “Trumbo – Lista Negra”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar do ano passado), mas aqui o jogo parece não ter funcionado. Bryan se mostra engessado e pouco interessado em dar vida a Ned, que nunca decola e não faz ninguém se importar com suas preocupações patriarcais. Pelo caminho contrário vai Megan Mullally, que é conhecida por papeis hilários (como a ninfomaníaca possessiva Tammy II, de “Parks &Recreations”, ou a socialite alucinada Karen Walker, de “Will & Grace”) e se entrega totalmente ao papel da mãe que está dividida entre dois lados. São gestos, olhares e palavras que saem naturalmente dela, o que enriquece muito a personagem e nunca a deixa cansativa. O resto do elenco faz o que pode, mas nada que seja digno de ressalvas. ZoeyDeutch, que interpreta a filha – justamente o pivô de todo a história– some por 2/3 do filme e o que temos é um amontoado de piadas escatológicas e sexuais, que envolvem drogas e aparelhos tecnológicos bizarros, já que a casa de Laird parece um iPad gigante.

Há, como sempre, uma trama paralela, que envolve o emprego de Ned em uma gráfica, mas ninguém se importa com isso. Algumas situações são tão absurdas e artificiais que chegam a dar dó. Tirando o centro da história, as desavenças entre Ned e sua família são totalmente desinteressantes e nada  trazem de novo à trama, que segue em um ritmo surpreendentemente leve. Este é um dos pontos positivos do diretor John Hamburg (de “Quero Ficar com Polly”) e do roteirista Ian Helfer: eles sabem o que estão fazendo e mesmo assim não se levam à sério. Pelo menos, a pretensão fica de fora.  É um filme “estranhamente moderno e velho”, que já cansamos de ver milhares de vezes.

No final, temos um gostinho doce na boca, que vem das risadas que demos com tantas bobagens. Mas nunca conseguimos deixar de sentir aquele amargo que vem junto, que nos lembra de um filme esquecível e descartável.


Guilherme Zirbel

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