Crítica: Spotlight (2016)

Por Gabriel Miranda

 

Ao ler a sinopse de Spotlight, pode-se ter a sensação de que vem por aí mais um filme jornalístico aos moldes americanos, onde o jornalista em questão é tratado como herói, e o seu trabalho é reconhecido por todos como a salvação da pátria. Em tempos em que os principais veículos de imprensa vive uma crise, pode ser até chato ficar glorificando assunto. Essa seria a maior armadilha em que o filme do diretor Tom McCarthy poderia cair, se não fosse pelo roteiro bem sacado, que apenas deixa seus protagonistas fazendo seu trabalho, evitando assim um culto aos profissionais da área, que são vistos pela sociedade como alienadores de opiniões.

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O longa conta a história baseada em fatos sobre o escândalo sexual envolvendo padres da igreja católica. O trabalho rendeu aos jornalistas o prêmio Pulitzer. No filme, que ressalta a importância do jornalismo antes do advento da internet, a denúncia é feita de uma forma que não se preocupa em amenizar os crimes cometidos pela igreja. Mesmo que não mostre os crimes de fato, o que pesa aqui são as informações investigadas pelos jornalistas, mostrando que tanto os números, por exemplo, podem causar revolta em quem assiste ao filme tanto como se fosse exibida as imagens dos pedófilos. Afinal, ficar sabendo que cerca de 70 padres, vistos como ‘homens de Deus e puros de coração’, abusando de crianças já causa um embrulho no estômago. É a notícia tendo o poder de causar revolta sem apelar para o sensacionalismo exibicionista.

A direção de McCarthy apenas segue o fluxo da história contada. Ainda que tome conta de um elenco liderado por Michael Keaton, McCarthy opta pela direção discreta, pouca intrusiva, dando um ar investigativo de fato, beirando a mediocridade. Já os nomes como Rachel McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci e Billy Crudup mantém suas atuações decentes, mas é com Mark Ruffalo que se destaca entre eles. É curioso ver como o ator de 48 anos manda muito bem em interpretar um personagem nitidamente mais jovem, cheio de gás com o ofício jornalístico.

Spotlight é o típico filme que agrada a academia, tratando de seu tema com responsabilidade. Tudo é muito cauteloso, modesto, dando ênfase ao trabalho em equipe sem estrelismo, onde a veracidade da reportagem é o que importa, mesmo que ela seja chocante. Essa mão cautelosa de McCarthy acaba contrastando com os absurdos escondidos pela igreja.

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Olhando por outra perspectiva, Spotlight pode ser encarado como um ‘terror’ burocrático/religioso, onde o poder judicial se torna refém da igreja. Mas por incrível que pareça, o longa não expõe a igreja julgando a mesma ou generalizando, aqui ela apenas conta os fatos de forma direta, evidenciando ainda mais seu discurso de denúncia. Depois de uma das vítimas contar seu relato para a jornalista, que se torna nossos ouvidos curiosos sobre o tema, McCarthy faz um enquadramento que mostra um parque infantil em frente a uma catedral, com crianças felizes brincando. A cena soa como um tiro.

GABRIEL MIRANDA
GABRIEL MIRANDA

 

Nota: 8/10

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