CRÍTICA: SILÊNCIO (2017)

Por Rafael Yagami

Século XVII. Dois padres jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe, viajam até o Japão em uma época onde o catolicismo foi banido. À procura do mentor deles, padre Ferreira os jesuítas enfrentam a violência e perseguição de um governo que deseja expurgar todas as influências externas.

O grandioso Martin Scorsese comanda esse espetáculo com sutileza e muita reflexão, é um dos seus trabalhos mais ambiciosos e profundos, começando com uma narração á serviço do filme, nunca ficando exposição barata, o ritmo do filme acelera a partir da primeira hora de exibição onde o ambiente e personagens já estão estabelecidos. Cada quadro é um espetáculo visual, jogo de câmera tão suave que parece que você está assistindo tudo ao vivo. A fotografia merece aplausos, lembrando trabalhos como “O Regresso” usando e abusando da beleza selvagem e neblinas.

O roteiro escrito pelo próprio Scorsese abre muito dialogo e possíveis interpretações, texto pesado, carregado de simbolismo e fé, não sendo apelativo e não ofendendo religiões opostas. O relato aqui mostrado é o mais real e impactante momento onde uma cultura não consegue se instalar em outro lugar, a expansão do catolicismo pelo Japão foi dura e muito sofrida, sentimos a dor, até mesmo de aqueles que não tinham nada a ver com a história. Personagens em constante mudança e sua fé sempre questionada, mudaria seus pensamentos para poder salvar aqueles que te seguiram? Jogaria seu “Deus” no fogo para poder continuar vivo?

Andrew Garfield entrega um trabalho difícil que para muitos poderia ter sido um desastre, mas o cuidado dado a seu personagem muda tudo, reflexivo e nunca impulsivo, o ar de líder nato está gravado em seu personagem e foi de maneira brilhante extraído pelo ator em uma performance marcante.  Adam Driver e Liam Neeson tem pouco tempo em cena, porém quando estão em tela é um espetáculo, ambos com personalidades fortes e opiniões opostas, coadjuvantes a altura do filme, grande trabalho de direção de atores. Issey Ogata é um mostro em cena, seu sorriso assusta e sua presença é muito marcante, cadê o Oscar desse homem gente?

Silence no original é um dos melhores filmes do ano, triste não ter sido lembrado no Oscar, mas nada disso apaga a grandiosidade dessa nova jóia do cinema, Scorsese nos brinda com sua direção maravilhosa, seu roteiro tocante e com um elenco magistral. É um filme longo e não deve agradar a todos, mas quem der uma chance vai se encantar, não precisa ser católico ou apoiar o lado oposto da moeda, precisa apenas ser amante de cinema autoral.


RAFAEL YAGAMI

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