SEM AMOR (2017): “EXPÕE UMA REALIDADE CRUEL ONDE O DESAMOR É UM ETERNO CAMPO DE BATALHA E SOFRIMENTO”

Por Eduardo Tavares

 

O diretor Andrey Zvyagintsev, anteriormente aclamado por Leviathan, volta a ser elogiado pela imprensa especializada com seu novo filme, que olha de forma crítica para a sociedade contemporânea, em especial a russa.

O filme não contou com apoio governamental do país de origem, que considerou Loveless e seu predecessor, Leviathan, um tipo de retrato indesejável para se expor ao mundo. O país extremamente nacionalista não costuma prestigiar com incentivo produções mais críticas que possam questionar a perfeição social muitas vezes vendida. Mas mesmo sem o incentivo, o filme ganhou bastante exposição e vem fazendo sucesso em festivais mundo a fora.

Sua  forma sensível e ao mesmo tempo brutal de contar a trágica história faz desse filme uma obra impactante e perturbadora. O roteiro gira em torno de uma família onde os laços de afeto não existem. Um casal em processo de separação a todo tempo em guerra e o pobre filho do casal protagonizam cenas chocantes, onde tudo o que se vê é o desamor. Nesse campo de batalha, o pobre menino é o que mais sofre no meio disso tudo. Vendo da perspectiva da criança é fácil se sensibilizar e cair na profunda tristeza que o filme também nos oferece.

@Sem Amor 2017/ Divulgação Sony Pictures

A fotografia azulada e fria é uma ferramenta importante nesse processo de construção de uma atmosfera solitária e sem calor, na forma literal e metafórica, uma vez que falta o calor humano também nas relações.

O filme também se passa no solstício de inverno, o que ajuda ainda mais a criar o pano de fundo para uma história sombria. Nessa época do ano, os dias são curtos e a noite acontece na maior parte do tempo, assim como na maioria das cenas do filme. Os cenários desertos de campos e florestas, e muitas vezes com presença de árvores sem folhas em plano aberto, cria a sensação de imensidão e solidão. Isso nos dá também a dimensão da escala em que o menino percebe as coisas e ajuda a criar a conexão com a personagem.

Nelyubov (no original) expõe uma realidade cruel que está cada vez mais presente no mundo contemporâneo, onde a frieza e o egoísmo parecem cortar relações primordiais para a existência da sociedade. A família como uma célula presente no sistema social se vê mais do que morta nesse ciclo, mas como um câncer, que causa dano a todo o resto. O desamor passa de geração em geração, como é visto no filme e torna a existência um eterno campo de batalha e sofrimento.

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