CRÍTICA: POR TRÁS DO CÉU (2017)

Por Diogo Domiciano

Na concepção popular, o nordeste brasileiro é frequentemente sinônimo de um espaço arcaico e pobre, caracterizado pelas constantes secas e estagnação econômica que contrasta com o desenvolvimento do Sul e Sudeste. O êxodo rural, definido pela migração de populações nordestinas para outras partes do Brasil, em especial o centro-sul, foi impulsionado basicamente por essas diferenças socioeconômicas dentro do país.

Filmes que retratam essa visão, especialmente do sertão nordestino, não são novidade no cinema nacional. Aliás, é uma temática recorrente em nossas produções a representação de pessoas que vivem em condições adversas e sua luta para sobreviver em um ambiente hostil de miséria e desesperança. Nesse sentido, Por trás do céu, o longa do jovem cineasta Caio Sóh, não é original. A história mostra o cotidiano de Aparecida (Nathalia Dill), uma mulher doce e cheia de sonhos que vive com o marido Edivaldo (Emilio Orciollo Neto), um homem amargurado por uma tragédia do passado e que é obcecado por vingança. A chegada de Micuim (Renato Góes), amigo do casal que trabalha com Edivaldo no canavial, e de Valquíria (Paula Burlamaqui), prostituta que fugiu do cafetão violento, reacendem os sonhos e a vontade de Aparecida de mudar de vida e ir para a cidade grande.

O interessante aqui é a forma como o diretor apresenta o ambiente do sertão para conduzir sua história, especialmente no que se refere aos aspectos técnicos da película. Fotografia, enquadramentos, direção de arte e trilha sonora adicionam ternura e poesia a esse universo árduo e violento já apresentado em outros filmes.  O elenco é competente, com destaque para Emilio Orciollo Neto, que traz no olhar toda a amargura e desesperança de Edivaldo, e Paula Burlamaqui, uma atriz subestimada que faz aqui uma mulher castigada pela vida, e representa o contraponto da sonhadora Aparecida.

A preocupação estilística do diretor, seja na fotografia saturada na medida certa, na eficiente direção de arte ou nos coloridos figurinos, flerta diretamente com o realismo fantástico. Outras películas já utilizaram essa abordagem para retratar esses personagens e suas histórias, algumas vezes exagerando na caricatura. De clássicos do Cinema Novo como Deus e o Diabo na terra do Sol (de Glauber Rocha, 1964) a obras mais recentes como O Auto da Compadecida (de Guel Arraes, 2000), o nordestino, durante muito tempo, foi representado no cinema como o cangaceiro, o ignorante, o religioso, o excêntrico, o cômico. Aqui, entretanto, o que ocorre é apenas um flerte com o realismo mágico, uma sugestão muito mais estética do que narrativa para contar a história de miséria social, violência e sonhos frustrados. Essa estratégia é um acerto do diretor, porque assim o filme consegue tratar a dureza da realidade dos personagens com delicadeza e lirismo sem, no entanto, amenizar a crueldade daquela situação.

Por outro lado, essa abordagem poética e suave acaba sendo também o calcanhar de Aquiles do longa, pois a ingenuidade excessiva dos personagens, especialmente da protagonista, é pouco crível e tira o espectador do filme em alguns momentos.  Fica difícil acreditar, por exemplo, que eles não consigam pronunciar corretamente palavras que acabaram de ouvir, como se fossem crianças aprendendo a falar e não apenas adultos analfabetos. Por isso, algumas passagens e diálogos que tentam inclusive trazer humor soam exageradas e conferem uma artificialidade que incomoda.

Alternando planos abertos do ambiente e closes nos rostos sofridos dos personagens, embalados por uma trilha sonora melancólica e bela, o longa é capaz de criar uma sensação de estranhamento ao espectador que traz um sopro de originalidade em relação a outras obras que tratam de tema semelhante. Caio Sóh havia demonstrado anteriormente ser um diretor promissor em trabalhos como o premiado Teus Olhos Meus (2011). Seu próximo longa a ser lançado, Canastra Suja, já apresentado em alguns festivais e bastante elogiado, aguarda uma data de lançamento. Que não demore.


DIOGO DOMICIANO

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: