CRÍTICA: PITANGA (2017)

Por Eduardo Pepe 

Documentário retrata com afetividade vida e carreira do ator Antonio Pitanga e resgata um pouco da história do cinema nacional e do próprio país.

Assim como o recente e fabuloso “Divinas Divas”, de Leandra Leal, a atriz Camila Pitanga procurou um assunto bem pessoal para estrear na direção: a vida profissional e pessoal de seu pai, Antonio Pitanga, ator que quebrou barreiras e se marcou na história do teatro, televisão e, principalmente, no cinema brasileiro. Na empreitada, ela tem a ajuda ilustre do experimente e premiado Beto Brant, que co-dirige ao seu lado. Brant é responsável por alguns clássicos modernos do cinema brasileiro, como “O Invasor” (2001), além de ter dirigido a própria Camila na melhor interpretação de sua carreira; “Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Belos Lábios” (2011).

O estilo de “Pitanga” é aparentemente despretensioso, com o próprio Antonio falando com a câmera e encontrando amigos, velhos parceiros e familiares em encontros informais com bate papos, troca de lembranças e pequenas histórias. Nesse simples formato, o documentário consegue retratar com naturalidade e simpatia seu biografado. E nisso o próprio Antonio facilita tudo: desinibido, divertido e, acima de tudo, carismático. Ele consegue sempre tirar um sorriso ou uma risada, tanto do espectador quanto de seus colegas que fazem participações. Alguns convidados rendem momentos divertidíssimos, como, por exemplo, uma rara aparição de uma sorridente e à vontade Maria Bethânia.

Entretanto, o filme ganha mais corpo quando passa a resgatar trabalhos do ator, em especial, alguns clássicos do cinema brasileiro, como “Barravento” (1962), de Glauber Rocha, e “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte. As conversas com atores e diretores colegas da época rendem um resgate importante, tanto da história do cinema, em especial, a época do movimento do Cinema Novo quanto da própria história do país durante a ditadura militar e na abordagem de temas latentes até hoje, como a questão racial no Brasil.

Em sua parte final, o documentário se volta para vivências do presente do ator, em especial, questões relacionadas a sua idade e a apresentar seus familiares mais próximos. É um acerto que a diretora Camila Pitanga apareça apenas como mais uma integrante da família sem nunca trazer o assunto para si e deixando sempre o brilho e o foco em seu pai. Naturalmente, um documentário de tom tão pessoal e familiar arrisca soar chapa branca, mas os convidados parecem tão à vontade e tom é tão natural e agradável que isso não se torna um problema. Mérito dos realizadores, Beto e Camila, que souberam equilibrar a técnica para contar uma boa história e retratar o biografado e o tom amistoso de carinho e admiração pelo protagonista.


Eduardo Pepe

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