CRÍTICA: PERSONAL SHOPPER (2017)

Por Diogo Domiciano

Umas das grandes virtudes do novo longa do diretor francês Olivier Assayas, Personal Shopper, além de reafirmar suas habilidades atrás das câmeras e como contador de histórias, é confirmar o talento de Kristen Stewart como atriz. Aqui, ela interpreta Maureen Cartwright, uma americana que vive em Paris trabalhando como personal shopper (alguém que faz compras pessoais, como roupas, joias e sapatos, para outra pessoa) de uma famosa modelo internacional. Além disso, ela apresenta habilidades mediúnicas, e deseja obsessivamente fazer contato com o espírito de seu irmão gêmeo Lewis, morto subitamente por uma doença cardíaca. Kristen transmite, em um tour de force hipnotizante, toda a angústia e desespero contido que toma conta da personagem à medida que a história avança.

Assayas surpreende com um roteiro que mistura elementos de gêneros cinematográficos distintos (drama espírita, terror e suspense psicológico) e consegue um resultado fluido e absolutamente intrigante. O espectador fica preso à trama tentando entender seus significados e para onde a história vai levar a personagem central. O uso do sobrenatural serve como metáfora do medo do mundo que nos cerca, com suas armadilhas, frustrações e perdas com as quais não conseguimos lidar. O temor que paralisa e, ao mesmo tempo, exerce uma atração incontrolável. A protagonista está com a vida estagnada, vazia, sem prazer, torturada pelos seus próprios demônios. Ela mesma é uma morta-viva, sem identidade, vivendo uma vida que não é dela, desejando ser outra pessoa. E não é à toa que o irmão falecido era gêmeo e tinha a mesma doença que ela – o que reforça as questões de perda e confusão de identidade que atormentam Maureen.

À primeira vista, o filme pode parecer sem sentido ou confuso, mas a miscelânea de gêneros funciona e o ritmo do filme jamais se torna enfadonho. Neste sentido, a inusitada combinação de moda, tecnologia (nas sequências com o telefone celular que traz mensagens ameaçadoras) e espiritismo rende uma reflexão interessante acerca do medo que pode advir de experiências do além-vida e sobrenatural, mas também da própria realidade concreta em que vivemos, que pode ser tão ou mais assustadora e, ao mesmo tempo, fascinante.

O espiritismo é abordado de forma explícita: em uma das conversas entre duas personagens, elas falam sobre almas que não conseguem se libertar e fazer a passagem para o mundo dos espíritos, um dos preceitos da doutrina de Alan Kardec. O paralelo com a vida de Maureen é óbvio: ela é uma pessoa que foi surpreendida pela perda inesperada e, de certa forma, violenta, de um ente querido, e não sabe lidar com a dor, estando aprisionada a ela como um espírito que não soube se libertar dos laços terrestres.  Assayas apresenta esta analogia já no início do filme, quando a fotografia escura e a câmera em primeiro plano mostram a própria protagonista como um fantasma ou espectro dentro do casarão mal-assombrado.

Explorando um tema que é conhecido do diretor (a busca da identidade individual após uma perda emocional irreparável, como já visto anteriormente em “Horas de Verão” (2008), neste sob uma perspectiva familiar), Personal Shopper pode ser visto como uma novidade na carreira de Assayas: um longa de terror, extremamente bem filmado e muito eficaz em criar tensão com enquadramentos precisos, uma trilha sonora que inclui vários sons diegéticos e uma fotografia eficiente.

Com um final aberto que incita o espectador à reflexão, Personal Shopper é um filme de suspense/terror absolutamente original e eficiente sobre o poder paralisante do medo e da perda de identidade.


Diogo Domiciano

1 thought on “CRÍTICA: PERSONAL SHOPPER (2017)

  1. Assisiti o filme e fiquei com algumas dúvidas. Quem era a pessoa que conversava com ela pelo celular? ERa o irmão dela no final do filme?

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: