CRÍTICA: PATERSON (2016)

Por Eduardo Pepe

Revisador da Crítica: Andre Leporati

 

‘Jim Jarmush tira beleza do cotidiano em filme sensível e contemplativo’

Depois dos vampiros hipsters no estiloso “Amantes Eternos” (2013), o diretor americano Jim Jarmush volta com um trabalho mais cru e realista em que o foco está nos pequenos detalhes da vida cotidiana. No filme, Adam Driver é Paterson, um motorista de ônibus que nas horas vagas gosta de escrever poemas, mas não os mostra para ninguém. Sua namorada (interpretada pela atriz iraniana Golshifteh Farahani, de “A Pedra da Paciência”), que vive arranjando alguma tarefa para fazer e sempre está pintando algum móvel ou acessório da casa em que moram, tenta convencê-lo de mostrar ao mundo suas criações.

É basicamente em torno da vida comum desses dois que o filme gira, mas o brilho do longa não reside exatamente na história, e sim em pequenos momentos do dia a dia deles. Momentos simples, mas envolvidos de delicadeza e sensibilidade. Assim como em “Boyhood – Da Infância a Juventude” (2014) que vemos as pequenas dores e alegrias de uma criança crescendo e se tornando um adulto, Jarmush joga luz de forma similar em escala menor para as mesmas pequenas coisas no retrato de uma semana da vida desse casal.

© Mary Cybulski

Como em qualquer cotidiano, há uma rotina: Paterson acorda antes de sua companheira, vai para o trabalho, volta para casa, janta com ela, leva seu cachorro para passear e toma uma cerveja no bar. Mas, mesmo nessa repetição, nenhum dia é igual ao outro e a dinâmica do filme está justamente em se voltar para essas variações de um dia para o outro. Variações essas que, em geral, não dependem do protagonista e, sim, do meio externo. São coisas que simplesmente ocorrem, elas podem mudar a vida dele ou passarem batido, dependendo da forma como ele as encare.

Nesse cotidiano sempre igual, mas sempre diferente, o filme se mantém acompanhando o personagem e seus poemas, que em tom, de certa forma, metalinguístico abordam pequenas coisas do cotidiano. Contribui para o tom do filme também a interpretação sutil e interiorizada de Adam Driver, que já é experiente em interpretar personagens um tanto quanto esquisitos. Com isso, se forma um discreto conto sobre a beleza do cotidiano em que Jarmusch segue agridoce alternando uma delicada contemplação das pequenas coisas da vida com alívios cômicos, porque assim como pode haver beleza no aparentemente banal há de ter também humor. E o diretor mostra que sabe muito bem disso.

© Mary Cybulski

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Autor do Texto: 

EDUARDO PEPE

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