Crítica: O Fio de Ariane (2014)

Por Tom CP

 

O cineasta Robert Guédiguian, famoso por suas abordagens políticas e sociais, conduz em O Fio de Ariane um trabalho diferente. Mais simples e fantasiosa, a história não tem grandes pretensões, podendo soar menor – e até decepcionar os fãs mais ávidos de Guédiguian. Antes de embarcar nessa aventura, é preciso entender, portanto, que a ideia aqui é a diversão acima de tudo. E nisso o filme tem seu mérito.

Ariane Ascaride (que empresta seu nome real para história) é uma dona de casa rica e solitária. É seu aniversário e ela prepara uma festa a fim de receber sua família e demais convidados. Contudo, um a um vai ligando para desejar os parabéns e informando que infelizmente não poderia comparecer, pelo fato de terem outros compromissos. Até mesmo o marido de Ariane se ausentaria. Triste e solitária, a mulher abandona a casa com seu bolo cheio de velas acesas e decide fugir. Ela entra em seu carro e vai dirigindo em direção à deliciosa Marselha.

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A partir desse ponto, Alice pula no buraco da árvore e entra em um mundo surreal. A comparação com a obra de Lewis Carroll não é exagerada. Parada em um congestionamento em cima de uma ponte, Ariane pega carona com um motoqueiro e essa travessia para o outro lado é exatamente o pulo de Alice no desconhecido Mundo das Maravilhas. O motoqueiro leva a mulher até um restaurante na beira da estrada chamado Café L’Olympique – nome este que tem total relação com a história. Mas a situação não vai de acordo com o que Ariane esperava e ela acaba presa no local, sem nem se dar conta de que aquilo viera para o seu próprio bem. Aos poucos a dona de casa acaba por fazer amizade com as pessoas locais, vive aventuras noturnas, descobre novas formas de vida e de afeto, se reinventa, o que facilita para ela nem se quer cogitar voltar para a vida antiga.

O gostoso na história é que em momento algum ela pretende ser o que não é. Cabe ao espectador perceber, desde o começo, a leveza com que Guédiguian – e inclusive Ascaride – conduzem a trama. Apesar de mais simples, O Fio de Ariane não é irrelevante. A intenção aqui é celebrar o amor duradouro e os prazeres da vida. Ariane escapa de sua vida monótona e sem graça, mas não há nenhum discurso sobre inquietudes da existência ou clamor a liberdade, como filmes tipo Thelma & Louise (1991) fazem.

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Um dos pontos altos do filme é seu desfecho, primeiro por um número musical interpretado pela sensacional Ariane Ascaride, a qual dança e canta a humorada canção: “Quem cria fama, deita na cama”, da dupla Kurt Weill e Bertolt Brecht. E segundo, pela reviravolta nos minutos finais da fita, quando é explicada a relação do título com a lenda mitológica de Ariadne, que deu a Teseu um novelo de lã para que ele marcasse a saída do labirinto do minotauro que ele estava prestes a entrar, e assim achasse a saída quando retornasse. Esse fio de Ariadne era o mesmo fio que conduz Ariane para fora do buraco da árvore que ela entra no começo do filme e gera uma reflexão sobre saber sonhar e retornar a realidade, evitando viver uma vida de ilusões.

TOM CP
TOM CP

 

Nota: 8/10

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