CRÍTICA: O CIDADÃO ILUSTRE (2016)

Por Eduardo Pepe

 

“Drama com fortes doses de humor ácido aborda viagem de fictício escritor em sua cidade natal”.

 

Imagine o fictício escritor Daniel Mantovani como uma espécie de versão argentina de José Saramago ou Gabriel García Márquez e tudo ficará ainda melhor nesse inteligente e mordaz drama com fortes pitadas de humor. Daniel, o tal escritor, ganhou a vida e o prêmio Nobel de literatura como escritor de romances com personagens envolvendo a pequena cidade na Argentina onde nasceu. Há 40 anos vivendo na Europa, ele decide voltar para passar uns dias a convite da prefeitura para ser condecorado “Cidadão Ilustre”. Desiludido e entediado, ele vê o retorno a sua cidade natal como uma experiência que pode ser revigorante ou mesmo inspiradora, afinal, ele não escreve nada já há alguns anos. O que ele não imagina é o tipo de reação que ele vai encontrar por lá. E as reações são das mais variadas, desde fãs enlouquecidos a detratores convictos.

Com isso, o filme acompanha dia a dia de sua viagem passando por palestras ministrados por ele e um concurso de pintura do qual faz parte do júri até uma passagem no tradicional prostíbulo da cidade. O que torna o filme acima da média é como ele usa o humor e a ironia para retratar toda a situação e os personagens, tanto os moradores da cidade quanto o escritor, criando situações tanto das mais embaraçosas e divertidas como outras delicadas e comoventes. Além do mais, o filme discute o papel da arte, o conceito de cultura e as dificuldades e deveres de uma figura pública de forma criativa e inteligente sem abrir mão da leveza e do bom humor.

@ Xenix Films

O roteiro de Andrés Duprat merece todos os elogios por conduzir a trama sempre mostrando novas camadas do protagonista e surpreendendo nos acontecimentos que vão se somando e se mostrando cada vez mais inusitados. Mas o filme não seria o mesmo sem a presença do excelente Oscar Martínez. O ator, que marcou presença no recente sucesso do cinema argentino, “Relatos Selvagens” (2014), reafirma o talento como mais uma bela performance. Seu Daniel Mantovani tem características típicas de vários artistas, mas não se limita a ser uma caricatura. O ator é impecável em suas tiradas de ironia, mas também compõe um personagem que convence por completo como ser humano, acima de qualquer estereotipo ou rótulo. O ator merecidamente foi premiado no último festival de Veneza como Melhor Ator. Ele, com seu meio sorriso irônico no rosto e disparando a todo momento respostas rápidas e duras, é a alma do filme.

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AUTOR DO TEXTO:

EDUARDO PEPE

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