CRÍTICA: NA VERTICAL (2017)

Por Guilherme Zirbel

A primeira cena de “Na Vertical” (“Rester Vertical”, França, 2016), o novo filme de Alain Guiraudie, se choca totalmente com o título: um carro percorre uma estrada totalmente plana e horizontal, cheia de curvas, ladeada por árvores. A mesma cena se repete mais seis vezes até o final do longa. Tal fato, que às vezes é visto em um caminho durante à noite ou em um rio calmo no meio de uma floresta, diz muito sobre o protagonista da história, Leo (DamienBonnard). À procura de inspiração para um roteiro, que é constantemente cobrado pelo seu superior para que seja finalizado e entregue o mais urgente possível, ele se envolve com a pastora de ovelhas Marie (IndiaHair), com quem tem um filho e parece passar meses (ou anos) desfrutando de uma tranquilidade bela, fria e horizontal (!!!) das montanhas da França.

Até que tudo muda completa e implacavelmente.

Entretanto, Leo não possui uma característica primordial dos escritores, roteiristas e demais “artistas da palavra”: o poder quase mágico da curiosidade, empatia e interesse. Com a falta destes pilares tão importantes, ele não passa de um roteirista ruim. Dos meios que utiliza para arrancar um fiapo de inspiração, vê fracasso em todos, já que se obriga a interpretar papeis nos quais não se encaixa e não acredita (amante, pai, espiritualizado, misericordioso, mendigo). É por esta falta de self-believe que Leo traz sempre à boca o gosto amargo da frustração – mas que, ironicamente, ele não parece saber que está sentindo.

Alain Guiraudie constrói em “Na Vertical” uma narrativa estranha e quase obtusa, quando insere situações que vão do mais puro drama e horror, até à bizarrice muitíssimo incômoda (o filme é, inclusive, classificado como Drama/Comédia). Alguns recursos no seu longa anterior, “Um Estranho no Lago” (França, 2013), são repetidos aqui, como as cenas quase explícitas de sexo, mas tratadas com uma naturalidade absurda, e as longas tomadas focadas em um só lugar, para que a cena toda seja analisada, ou até que algum objeto ou personagem importante entre no foco da sua visão. Se no filme anterior Alain tratava do desejo irrefreável e tóxico, que chegava a ser praticamente mortal, aqui o volante muda de rumo. O que nos é apresentado é uma tela em branco, onde o protagonista não quer nada mais além de desejar, viver e ser algo.

O elenco faz muito bem. DamienBonnard oferece a Leo todas as nuances das dúvidas e anseios que diariamente tomam conta da sua vida. A contemplação das coisas dando errado é genuína e é transmitida para o espectador, que torce com uma curiosidade mórbida para ver até onde Leo vai. Com atuações de qualidade equivalente, estão RaphaëlThiéry e IndiaHair, pai e filha que pouco se parecem. A direção de Alain é muito segura e possui toques muito elegantes, como quando mira nas montanhas totalmente desertas, no rebanho de ovelhas que anda de um lado para outro ou na face de Leo, parecendo um voyeur sem descanso.

Acima de tudo, o longa é uma comédia dramática (ou um drama caricato) de erros e acertos que, aos olhos da plateia, pode parecer um pouco distante e estranha, já que as situações são muito excêntricas e inimagináveis. Mas isto é uma escolha totalmente consciente de Alain,  que dialoga com o que Leo faz para ter um pouco de honra e orgulho profissional. Será que faríamos diferente, caso fossemos igual a ele e estivéssemos nas mesmas condições?

Em determinado momento do filme, a frase “aqui os lobos matam” é mostrada e, pelo tom forte e marcante, guardada na nossa memória. Quando chegamos ao final da jornada de Leo, é impossível não ligar a frase com outro pensamento que o personagem externa: o importante é não demonstrar medo, ficar em pé, permanecer sempre na vertical. Caso contrário, viramos vítimas dos (nossos) lobos.


Guilherme Zirbel

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