CRÍTICA: MISTÉRIO NA COSTA CHANEL (2017)

Por Guilherme Zirbel

Por volta de 1920, em uma praia francesa que exala vento e frio tanto quanto beleza, vive uma família que se divide entre várias tarefas marítimas: cultivo de mariscos e ostras, travessias turísticas pela maré que sobe e pescarias em geral. Opostamente, em uma mansão extravagante que é uma réplica cafona de um monumento egípcio, membros de outro núcleo familiar se revezam entre quem mora ali, e quem apenas passa, todos os verões, para fazer uma visitinha de férias. É nesta paisagem quase pseudo-bucólica que vários desaparecimentos vêm ocorrendo. É esse o tronco principal de “Mistério na Costa Chanel” (2016), do cineasta francês Bruno Dumont, que estreou no final de janeiro no Brasil.

Ma Loute Brufort (Brandon Lavieville), o filho mais velho dos trabalhadores da praia, acaba se envolvendo com Billie (a/o atriz chamada apenas de Raph), que tem como mãe Aude (Juliette Binoche) e tio André (Fabrice Luchini). Para o desgosto dessa família, os Van Peteghem, que é rica e tem posses, a paixão entre os jovens parece ser real e representa uma ruptura nas tradições já enraizadas. Ah! A pobre família Brufort é canibal.

São opostos gritantes, como esses, que compõe a narrativa da história. Se o problema parecia estar somente no embate entre burguesia vs. proletariado francês, mais uns minutos da projeção demonstram que as diferenças não param por aí: masculino vs. feminino, gordo vs. magro e sanidade vs. loucura são pilares de todas os questionamentos que o filme joga na cara do espectador. O comportamento de todos os personagens se torna uma ilustração do horror que o extremismo e a segregação social podem acarretar (Ma Loute, por exemplo, cospe no chão quando se enfurece com algum rico sem escrúpulos; Aude fala cada vez mais alto toda vez que não entende algo ou não fazem a sua vontade).

Confesso que não sou grande conhecedor do modo de fazer filmes de Bruno Dumont – um amigo meu já havia me indicado suas obras anteriores (“Twentynine Palms”, 2003, e “P’tit Quinquin”, 2014), mas só agora consegui dar a devida atenção a ele. E a surpresa não poderia ter sido mais agradável. Não há absolutamente nada de errado em bizarrices quando se trata de arte, ainda mais no cinema (David Lynch, Michel Gondry e Alejandro Jodorowsky estão aí firmes, fortes e aclamados) e os mistérios que envolvem a Costa não fazem o caminho contrário. Roupas, cabelos, maquiagens, gestos e falas são propositalmente afetados para demonstrar um mundo que, de tão cruel e frio, se torna praticamente um pesadelo (e sonho para alguns).

Juliette Binoche está hilária e faz sua Aude se sobressair em qualquer momento que esteja (a cena da carcaça do navio encalhado e a sua última aparição em tela me fizeram rir demais) – um mérito que só grandes atrizes, que fluem entre drama e comédias, sabem fazer. Outra maravilha no elenco é Didier Després, que interpreta o Detetive Machin – uma figura que está, literalmente, inchando igual um balão de tanta ansiedade e vontade de resolver o caso dos desaparecimentos na Costa. Fabrice Luchini e Valeria Bruni Tedeschi (que vive Isabelle Van Peteghem, a irmã de Aude que vive no casarão) estão ótimos e dão firmeza e sustentação aos seus loucos e atípicos personagens.

A direção é extremamente segura e traz leveza e sutileza à história – quando decide, por exemplo, filmar a baía de longe quando é conveniente aos ricos, e de perto, quando quer demonstrar a pobreza e sujeira que os pobres estão submetidos. Além disso, toda a fotografia é pálida e carrega o frio que o vento constante traz à praia. Entretanto, Dumont não parece perceber, em alguns momentos, um fato simples: eventualmente a história parece ser deixada de lado para dar lugar à bizarrice. Não é sempre, mas nota-se que é um capricho do diretor em fazer um filme completamente fiel à sua vontade.  E não há mal nisso.

“Mistério na Costa Chanel” é, no final das contas, um ótimo filme e com momentos muito engraçados, mas que pode soar non-sense e pitoresco demais para algumas pessoas. Demérito? De maneira nenhuma. Em determinado momento, um personagem grita de cima de um penhasco: “sabemos o que fazer, mas não fazemos nada!”. E é justamente isso que falta à essas pessoas: se entregar ao mundo fantástico (e real, no fundo), da maravilhosa Costa Chanel.


Guilherme Zirbel

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