CRÍTICA: MELHORES AMIGOS (2016)

Por Eduardo Pepe

“Discreto drama com subtexto social contrapõe conflitos adultos e juvenis”.

Um menino (Theo Taplitz) desenha no meio de uma aula de ensino fundamental e é repreendido por seu professor causando o riso de seus colegas de turma. Em seguida, ele descobre por um telefonema que seu avô morreu. Então passamos a acompanhar o seu pai (Greg Kinnner, indicado ao Oscar por “Melhor é Impossível”) preparando o velório e, no meio disso, descobrimos que o senhor recém falecido era amigo de uma chilena (Paulina Garcia, de “Glória”) que é dona de uma loja de roupas localizada na parte de baixo da residência dele. Demora um pouco para as peças de “Melhores Amigos” se encaixarem e o filme mostrar qual história veio contar e qual é, de fato – o ponto em questão.

Até o filme chegar em sua espinha dorsal narrativa, acompanhamos o cotidiano de uma família. O pai é um ator que apesar da idade já um tanto avançada ainda não obteve grande sucesso ou reconhecimento na profissão. Ele é casado com uma psicóloga bem sucedida (Jennifer Ehle, mais conhecida por seus papéis na Broadway) que toma as rédeas das contas da casa e juntos eles têm um filho.
Acompanhamos quase que em paralelo a vida do menino, que vai fazendo amizade com o filho da personagem da personagem da Paulina Garcia, e o cotidiano dos pais, especialmente, nas decisões legais sobre o novo contrato de aluguel do espaço onde funciona a loja de roupas. Com isso, há um constante embate entre como os problemas dos adultos interfere na vida das crianças, que alheias ao conflito apenas querem ficar juntas o maior tempo possível.
Um aspecto interessante é não contrapor com clichês as duas crianças. Embora o filho do casal seja mais introspectivo e menos popular, ele nunca se resume a criança coitadinha. O outro menino também não é resumido a ser extrovertido e engraçado. Os desenhos dos personagens tanto das crianças quanto dos adultos são construídos com sensibilidade e sem excesso de tintas.

Entretanto, apesar de toda a sensibilidade no desenho dos personagens, fica uma sensação de que haverá um forte aprofundamento nas questões que a trama aborda, mas o roteiro acaba nunca abandonando o tom de registro de cotidiano. Um estilo válido, porém que aqui resulta como um filme que nunca de fato enfrenta totalmente seus conflitos e acaba mais insinuando um drama familiar de fundo social do que exatamente realizando um. Por outro lado, o filme é recheado de boas cenas que não necessariamente são definitivas para a narrativa, porém dão um tom maior de sensibilidade aos personagens, como, por exemplo, a aula de teatro das crianças. São momentos normais do cotidiano como esse que o filme atinge seu ápice de delicadeza.

Vale destacar o elenco comprometido em entregar performances convincentes longe de excessos, mas se deve destaque especial para a atriz Paulina Garcia. Depois de levar o Urso de Prata de Melhor Atriz no festival de Berlim com o filme “Glória” (2013) e de interpretar a mãe de Pablo Escobar na série “Narcos”, Paulina participou nesse filme que é seu primeiro longa americano. Mesmo em papel secundário, Paulina entrega a melhor interpretação do elenco dando a sua personagem humanidade e uma forte carga emocional que o filme em si nem sempre tem. É uma bela composição que chegou a figurar entre as indicadas ao Independent Spirit Awards, o Oscar do cinema independente, de Melhor Atriz Coadjuvante. Além dessa indicação, o filme também foi lembrado por seu roteiro; escrito pelo diretor do filme, Ira Sachs – em parceria com o brasileiro Mauricio Zacharias.

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AUTOR DO TEXTO:

EDUARDO PEPE

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