CRÍTICA: LOGAN (2017)

Por Eduardo Pepe 

Último filme de Hugh Jackman no icônico papel de Wolverine é um marco no gênero e uma despedida que arrepia e emociona

Há 17 anos, o ator Hugh Jackman começou a ser imortalizado nas telonas como o Wolverine, o mais destacado dos X-Men. A imagem dele e de seu personagem se cruzaram de uma forma que simplesmente era impossível para a maioria do público desassociar um do outro. Sua credibilidade com o personagem era tamanha que mesmo protagonizando dois longas decepcionantes solos do personagem, “X-Men Origens: Wolverine” (2009) e “Wolverine: Imortal” (2013), não lhe afetaram em praticamente nada, pois os fãs seguiram aguardando com entusiasmo o próximo filme do ator na pele do famoso mutante. Esse novo trata-se de “Logan” (2017), o amplamente anunciado último filme do ator no papel e atualmente o filme do momento. Porém mais que uma despedida ou uma febre passageira entre os jovens, “Logan” é um filme a parte em toda a história recente dos filmes de super-heróis.

As diferenças são sentidas logo na primeira cena em um embate entre Logan (Hugh Jackman) e um grupo de homens que tentam lhe assaltar. A violência crua, gráfica, explícita é incomum de ser vista mesmo em filmes baseados em HQs mais sombrios e maduros, como a trilogia Batman de Christopher Nolan. Outro ponto que coloca o filme fora da curva é o fato do filme não se deslumbrar com uma pirotecnia excessiva dos efeitos visuais e, sim, ser um filme focado nos dramas psicológicos de cada personagem. Há momentos de ação, claro, mas mesmo eles tendem a ter um tom íntimo, próximo do espectador e da realidade. Sem luz neon ou coisas do gênero, a briga é na mão, na arma ou mesmo no murro. Nesse sentido, diversas sequências se aproximam mais de cenas de crime que ouvimos falar diariamente nos noticiários do que as coloridas explosões de CGI que destroem cidades inteiras em questão de minutos.

A trama em si é simples: num futuro próximo, Logan (Hugh Jackman) trabalha para se manter e ajudar o professor Xavier (Patrick Stewart, também pela última vez na pele do personagem), que está muito idoso e debilitado. Ele é procurado por uma mulher desconhecida (Elizabeth Rodriguez), que lhe pede para levar para um lugar seguro a sua filha, Laura (Dafne Keen). Mas mesmo com essa trama enxuta o filme não se torna menos audacioso ou interessante.

Trata-se de mais de duas horas de filme que passa por ação, road movie, flerta com o gênero faroeste e desenvolve até momentos de drama familiar. O tom simples e linear da história ajuda, mas vale destacar o bom desenvolvimento do roteiro que consegue deixar tudo isso em um tom crescente e homogêneo impedindo que tudo soasse excessivamente episódico.

O tom do filme soa como de uma mesma caminhada que vai adquirindo novos contornos com o passar da estrada, mas o rumo do trajeto nunca é perdido. E muito se deve a expressividade e forte interiorização de Hugh Jackman no que deve ser a grande performance de sua carreira até então. O Wolverine sempre foi um personagem austero, reservado, não ligado a sentimentalismos e justamente por isso sempre foi visto como um personagem extremamente heroico, implacável, mas o prisma desse novo filme o desnuda. Ao lhe mostrar mais velho, debilitado e sem os mesmos poderes e companheiros do passado e ainda tendo que lhe dar com a decadência física e mental do seu mentor, o professor Xavier, ele se revela um personagem muito mais fortemente dotado de humanidade, com fragilidades e um ar melancólico como qualquer ser humano. Ele ainda é muito reservado e tem seus ataques de fúria como de costume, mas a casca do herói implacável se descontrói por completo.

A interação com a jovem Dafne Keen, uma revelação de apenas 11 anos, contribui nessa desconstrução. Ao mesmo tempo em que a jovem vai baixando a guarda e se abrindo, o Logan de Jackman faz o mesmo criando para o personagem pela primeira vez em muito tempo uma relação de fato sincera e delicada com alguém. Um debilitado Patrick Stewart, que sabe muito bem como equilibrar melancolia e bom humor, também é peça fundamental nesse jogo de relações que culmina na abertura emocional do protagonista.

Vale dar destaque, claro, para James Mangold que dirigiu o filme. James fez recentemente filmes como “Encontro Explosivo” (2010) e “Wolverine: Imortal” (2013) que não preparam em nada para a potência desse atual projeto. Mas mesmo seus filmes mais dignos, como “Johnny e June” (2005) e “Garota Interrompida” (1999), não tinham como sequer insinuar a sua capacidade para equilibrar com maestria cenas de ação, violência gráfica e forte carga dramática. Mas, dessa vez, ele imprime um notável tom autoral e não suaviza nem na parte visual nem no tom emocional do filme deixando o clima sombrio e, muitas vezes, até mesmo melancólico permear todo o longa.

Contribui muito para esse tom também é a fotografia de John Mathieson, premiado principalmente por seu trabalho no épico “Gladiador” (2000), que parece ter certos ecos nesse novo trabalho. Uma inspiração também parece ser o recente “Mad Max – Estrada da Fúria” (2015); sequências escuras repentinamente iluminadas por um belíssimo clarão amarelado revelado a partir de uma paisagem desértica lembra, em alguns momentos, a estilosa perseguição no deserto pós-apocalíptico do filme de George Miller. Assim como o último “Mad Max” marcou o cinema em 2015 e se categorizou como uma iniciação de uma nova fase do cinema de ação holywoodiana, “Logan” marca 2017 e parece dar uma continuidade natural ao estilo que agora se aproxima do universo dos super-heróis e adiciona mais carga dramática, especialmente, em sua dolorida sequência final. Enfim, certamente um prato cheio para os fãs, porém pode facilmente impressionar até mesmo os espectadores de ocasião.


EDUARDO PEPE

11 comentários em “CRÍTICA: LOGAN (2017)

  • 16/06/2017 em 13:05
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    Parabéns! Crítica bem didática!

  • 05/04/2017 em 21:09
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    Esse filme mexeu comigo………e para o lado bom………..afinal, sou fã de HQ.

  • 14/03/2017 em 23:51
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    Maravilhosa crítica, quem ainda não assistiu fica querendo correr para o cinema mais próximo (meu caso) e quem já assistiu tem uma excelente crítica para ajudar a analisar e refletir. Parabéns!

  • 14/03/2017 em 10:54
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    Otima crítica, ainda n vi o filme é ja me senti interessada!

  • 14/03/2017 em 00:20
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    Comentário consistente, excelente crítica. Parabéns Eduardo!!!

  • 13/03/2017 em 23:48
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    Estou impressionada com a crítica escrita pelo Eduardo Pepe. Digna de grandes críticos. Fiquei com vontade de assistir o filme Logan…pois achei que era filme pra adolescentes

  • 13/03/2017 em 21:15
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    ótimo texto, impressionante!

  • 13/03/2017 em 19:55
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    Nossa, gostei muito dessa critica! Muito bem escrita !

  • 13/03/2017 em 19:13
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    O texto é perfeito! Excelente crítica, parabéns!

  • 13/03/2017 em 18:55
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    Parabéns Eduardo, excelente crítica.

  • 13/03/2017 em 17:06
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    Muito bom o texto!! Parabéns Eduardo! O filme é ótimo!!!!!!

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