CRÍTICA: JACKIE (2017)

Por Rafael Yagami

Jacqueline Kennedy, inesperadamente viúva, lida com o trauma nos quatro dias posteriores ao assassinato de seu marido, o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy.

O chileno Pablo Larraín aqui comanda seu primeiro trabalho americano, o diretor já foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo excelente “No” e aqui entrega um trabalho de muita classe e personalidade. Dividido em três momentos importantes, nada aqui fica bagunçado, com uma montagem indo e voltando, acaba dando ritmo à trama onde o espectador vai descobrindo as coisas e ligando os pontos. O jogo de câmera usa e abusa de closes/takes vintage e cenas em preto e branco, a recriação do clássico especial para a TV feito por Jackie quando começou a morar na Casa Branca é espetacular, sem falar no tom antigo que todo o projeto carrega, usando uma fotografia mais carregada com tons cinza e azul.

O figurino merece grandiosos elogios, o trabalho de recriar os modelos que a primeira dama usava é absolutamente idêntico, os trajes masculinos e das coadjuvantes também merecem destaque, tudo muito bonito e ligado 100% a época retratada na produção. A trilha sonora tem personalidade e ajuda a contar a historia, quase como um personagem em cena. O roteiro que foi escrito por Noah Oppenheim, o mesmo que adaptou “Maze Ruuner e Convergente” para as telonas por incrível que pareça, entrega aqui um texto digno de respeito, claro que o foco é apenas na primeira dama, porém podemos ver brevemente um panorama geral da época. Tudo embrulhado com diálogos fortíssimos, cheios de segredos e personagens muito interessantes, a todo momento o público se surpreende com os coadjuvantes, ambos com camadas e ambições.

Porém a grande estrela do filme e a responsável por tudo dar certo no final é a já ganhadora do Oscar Natalie Portman, quase impossível dizer que esse é seu melhor trabalho, mas pode se concordar que é seu desempenho mais profundo e doloroso. É uma personagem quebrada, sem motivos para viver e totalmente mergulhada na depressão. Entregando cenas assustadoramente tristes, o trabalho de voz é extraordinário e até os trejeitos da primeira dama foram duplicados aqui. Respeita sua personagem e ao mesmo tempo dando mais facetas a uma figura que todos conhecem, ou achavam que conheciam.

Greta Gerwig também em boa forma, procura dar um pouco de força para a protagonista, sua personagem é quase um alivio em meio a tamanha atmosfera pesada. Peter Sarsgaard é a voz da razão ou a voz da loucura, as vezes tudo ao mesmo tempo e Billy Crudup é o jornalista totalmente esmagado por Jackie, na trama pelo menos, pois seu personagem também é ótimo. E não podemos esquecer do grande acontecimento do filme, o ator Caspar Phillipson na pele do JFK não tem muito o que fazer, obvio já que o filme não foca no mesmo, mas a semelhança física com o personagem real é enorme e até assustadora em alguns momentos. A cena onde ele é atingido é gritante de tão real e vai mexer com pessoas de estômago fraco.

Uma das melhores biografias já feita, retrato da dor e amargura, solidão e ódio pela vida. Direção firme e forte, roteiro poderoso, personagem principal grandiosa e um elenco pronto para dar total apoio a trama, merece ser visto e apreciado, um grande espetáculo, bravo!


RAFAEL YAGAMI

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