Crítica: Invasões Bárbaras (2003)

Por Gabriel Fagundes

 

Enquanto algumas obras apelam para sentimentalismos baratos e doses ordinárias de cenas qual a intenção é atingir o emocional coletivo, o exemplar francês tece uma perspectiva única dos últimos dias da vida de um esquerdopata de má índole que ainda não está preparado para partir.

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Vencedor do prêmio de melhor roteiro e atriz em Cannes, o filme explora a relação do protagonista com os mais variados gêneros de pessoas, desde amigos de infância, família e amantes, até ex-alunos e enfermeiras do hospital, transitando memórias feitas no agora e ricas lembranças de tempos que não voltam. O destaque da obra se dá no elo que liga o passado do personagem principal com as consequências e ultimatos que ponderam seu determinante momento, como a relação com o filho, sempre fria, distante e calculada, explícita na fita como fruto das traições, separações e desvios de conduta no casamento. Não obstante o que está a olhos nus, o que de fato torna a ideia que envolve As Invasões Bárbaras tão interessante é o descaso com a moral que entorna as relações interpessoais do futuro defunto, que desde a primeira aparição demonstra um enorme prazer pela vida e suas sinuosidades, possibilidades e infinitas vias de mão por onde sim podemos tomar mais de uma decisão e nada é absoluto ou concreto o suficiente a ponto de definir caminhos sem volta.

Há também um diálogo sobre tempos escuros para o conservadorismo, tradicionalismo e todos esses “ismos” que designam a carência do mundo em compartilhar aquilo que deveria ser de todos e não apenas de alguns. Tomando como base o atentado de 11 de setembro, o roteiro é repleto de metáforas e representações, onde os Estados Unidos já não transmitem aquela imagem de simulacro exemplar, a famosa contracultura passa a invadir cada pequeno espaço necessitado de reformas e o mundo se tornou o palco de quem pode. A plateia de amigos com cunho filosófico, artístico e científico exposta no filme como superior a classe operária, pode-se dizer que está a assistir a uma bonita peça de teatro sobre a finitude da vida, mas somos nós, espectadores, produtos do meio e artesãos do dia a dia que vemos a realidade como ela é, nua e crua, de total dependência do dinheiro e da resignação de quem tem para quem precisa. É tanta crítica transvestida de exaltação que moral alguma se faz valer para a obra em questão.

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Mais que um filme sobre um pai, esposo e amigo, é um filme sobre um tempo que todos nós um dia vamos viver, que hora ou outra, num piscar de olhos, estaremos lá. Mas enquanto não e seguindo a idealização de vida do nosso protagonista, continuemos aqui a procura de mais uma porção de felicidade e memórias incríveis.


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GABRIEL FAGUNDES

Nota: 8/10

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