CRÍTICA: GAROTA OCIDENTAL- ENTRE O CORAÇÃO E A TRADIÇÃO (2017)

Por Eduardo Tavares

 

“Filme contrapõe tradições culturais e liberdades individuais com retrato tenso e humanizado”

A jovem Zahira foi criado seguindo as tradições do Paquistão. Entretanto, ela e sua família moram na Bélgica há muito tempo e isso acabou contagiando a jovem adulta que ela é hoje. A moça quer sair à noite, paquerar e estudar, ou seja, coisas que qualquer típica garota ocidental deseja. Ela vem se virando a sua forma dando sempre um jeito de viver a vida que deseja até que chega a hora de se casar. Ela não quer um casamento arranjado. Completando o problema, ela se descobre grávida.  

O filme parte de uma trama que remete ao recente “Fátima”, que acompanha o cotidiano de uma família de imigrantes muçulmanos no França, mas tem uma abordagem diferente. Enquanto “Fátima” se desenvolvia com dramas comuns em um tom de retrato de cotidiano, “A Garota Ocidental” tem uma abordagem mais íntima e sufocante. A câmera quase sempre gruda nos ombros da protagonista, que vai entrar em uma rotina densa em que a tensão e angústia latente de sua vida vai crescendo pouco a pouco à medida que sua família fica, cada vez mais, impaciente com a revolta da jovem.

@Cineart Filmes

Apesar desse embate, o retrato de todos os personagens é extremamente humanizado, com todos tendo seus pontos de vista mostrados e com o roteiro se desenvolvendo de forma a revelar que não há soluções fáceis que agradem as tradições e as vontades individuais da jovem. Os atores convincentes e perfeitamente naturais também contribuem a gerar empatia por todos os personagens, pois, apesar das discordâncias, todos querem o melhor uns para os outros.

Apesar das qualidades do roteiro e do elenco, o maior mérito é do diretor Stephan Streker. O trabalho dele é fundamental em dar o tom de tensão e angústia que permeia o filme em tom crescente. Vale destacar que, por vezes, ele opta por planos inusitados que criam efeitos emocionais. Em uma cena, por exemplo, um personagem conta uma revelação para outro e no lugar da câmera mostrar os dois de perto, ela mostra em um plano sequência estático os dois personagens de longe. E o espectador fica sem direito a ouvir o que eles estão dizendo. A cena, dessa forma, fica bem mais inquietante, porque não sabemos a princípio o que esta sendo dito e a reação dos personagens envolvidos.  

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Todos esses elementos configuram personalidade a uma obra, que apesar dos temas nobres, retrata situações já trabalhadas em diversos filmes, principalmente, os que abordam algum país de maioria muçulmana. Entretanto, a inteligência do roteiro e as boas soluções da direção injetam consistência ao filme.

 

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AUTOR DO TEXTO: 

EDUARDO PEPE

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