CRÍTICA: FRAGMENTADO (2017)

Por Diogo Domiciano 

Em agosto de 1999, um filme arrebatava o mundo e colocava o nome de seu diretor sob os holofotes da indústria cinematográfica: O Sexto Sentido, do cineasta indiano, naturalizado estadunidense, M. Night Shyamalan. Celebrado como um sucessor de grandes mestres do suspense, Shyamalan mostrava um refinamento técnico admirável e um talento hitchcockiano para construir cenas de suspense. Sua obra-prima colocou em voga um recurso que se tornaria popular em vários filmes posteriores, inclusive do próprio diretor, tornando-se uma marca de sua filmografia: o plot twist (reviravolta no enredo), aquela mudança radical na direção esperada da narrativa do filme. Em seu longa seguinte, Corpo Fechado (2000), ele realizou um brilhante estudo sobre as fragilidades e contradições humanas na construção do mito do herói. Seus trabalhos seguintes, menos aclamados, mas não menos interessantes, foram Sinais e A Vila, dois suspenses de tirar o fôlego e com plot twists surpreendentes. A partir daí, o diretor deixou-se tomar pela arrogância e foi ladeira abaixo com trabalhos medíocres, recheados de muita pretensão vazia.

Finalmente, para a alegria do cinema, em 2017 Shyamalan parece ter recuperado seu timing e nos entregou um filme que, se não está no nível das obras-primas O Sexto Sentido e Corpo Fechado, pode ser equiparado em qualidade aos outros dois ótimos trabalhos mencionados antes. Fragmentado (Split, no título original) traz de volta seu grande talento em deixar a plateia com o coração na boca. Na trama, Kevin (James McAvoy, sensacional) é um homem com TDI (Transtorno Dissociativo de Identidade), armazenando dentro de si nada menos que 23 personalidades distintas tanto psicológica quanto fisicamente. Após sequestrar Casey (Anya Taylor-Joy) e suas duas colegas adolescentes, o atormentado paciente da psiquiatra Dra. Fletcher (Betty Buckley) precisa controlar a explosão e descontrole das diferentes criaturas dentro de si, enquanto as três vítimas do sequestro tentam escapar do cativeiro.

Logo na abertura, o uso da câmera subjetiva introduz o suspense ao mostrar a ação de Kevin por alguns minutos no momento em que ele sequestra as meninas. Acompanhamos o que ele está fazendo atrás de um carro pelo vidro do retrovisor através do qual Casey, que está no banco do passageiro, observa a movimentação atrás do automóvel, sem entender o que está acontecendo.  No instante em que Kevin entra no veículo sequestrado, Shyamalan utiliza um primeiro plano estático de Casey em pânico, sem coragem de olhar para o lado, durante vários segundos, nos fazendo sentir o desespero da personagem. No momento seguinte, o mesmo recurso é utilizado para ilustrar uma tentativa de fuga da garota.  A partir daí, vários momentos de tensão palpáveis são construídos dentro do covil do sequestrador, onde se passa a maior parte da trama. O ambiente, um labirinto de corredores, portas e compartimentos que fragmentam o ambiente e representam a psique de Kevin, é retratado com uma fotografia pálida e acinzentada, reforçando o caráter de abandono e desesperança das adolescentes sequestradas.

Diferente dos longas anteriores, cujo principal problema era a superficialidade das tramas que beiravam o ridículo, aqui o roteirista Shyamalan elabora uma história complexa e inteligente ao explorar as nuances psicológicas dos seus protagonistas para dar profundidade à sua narrativa. Assim, em Fragmentado existe desenvolvimento dos personagens, aspecto essencial do qual o diretor parecia ter esquecido depois de A Vila. James McAvoy dá um show na pele do homem fragmentado pelo transtorno dissociativo. O ator brilha ao migrar de uma personalidade para outra de forma fluida e sutil, às vezes só com um olhar, uma leve mudança de expressão ou no tom de voz e, no entanto, é hábil ao deixar claro para o espectador quando isso acontece e qual personalidade assumiu a identidade de Kevin. Grande atuação. Algumas vezes soa propositalmente caricato, o que confere certa dose de humor ao filme. Entretanto, diferentemente do longa anterior (A Visita, 2015), que não se decidia entre o suspense ou a comédia, aqui esses momentos são um acerto do roteiro para aliviar a tensão, sem comprometer a história ou diluir o suspense.  Anya Taylor-Joy confirma seu talento promissor, que já conhecíamos de outro papel forte no terror A Bruxa (2016). A atriz consegue demonstrar a força e a vulnerabilidade coexistentes na mente também perturbada de Casey. Por sua vez, a veterana Betty Buckley transmite confiança como a psiquiatra do personagem atormentado, e tem uma das melhores cenas do longa ao lado de McAvoy em uma das sessões de terapia de Kevin.

A única ressalva seria o aspecto algo fantasioso com que o TDI é abordado, especialmente no final do filme, que pode eventualmente afastar alguns espectadores com mentes menos abertas. É necessário embarcar na história e se surpreender com a abordagem original e instigante com que o diretor trata o tema.

Por fim, para fechar em grande estilo, o diretor insere uma cena pós-créditos que  surpreende o público, sugere uma possível continuação e faz uma bela referência ao seu próprio universo de personagens. Podemos, assim, respirar aliviados e confirmar que M. Night Shyamalan está vivíssimo para o cinema. Amém, Shyamalan.


Diogo Domiciano

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