CRÍTICA: ESTEROS (2017)

Por Eduardo Pepe

 

“Coprodução entre Argentina e Brasil é um delicado filme sobre o reencontro de velhos conhecidos”

 

O longa de estreia do diretor argentino Papu Curotto se centra em dois amigos que estavam afastados um do outro. Acompanhamos em paralelo a infância e a vida adulta atual desses dois homens. Quando crianças, são grudados. Atualmente, não se vêm há anos e se reencontram por mera casualidade. O que parecia um mero reencontro de amigos se transforma em uma gradual mudança de comportamento dos dois. Não sabemos o motivo deles terem se afastado, mas o longa pouco a pouco vai pontuando algumas das lacunas iniciais. Nem todas as lacunas serão completamente preenchidas, mas o espectador terá a base suficiente para se entender o que passou na vida deles no intervalo entre os dois momentos narrativos.

Apesar disso, o filme é bem mais de sentimentos engolidos e de silêncios dos personagens do que de uma trama a ser desvendada. O diretor gruda em seus dois protagonistas, que carregam semelhanças entre si, mas também diferenças bem mais demarcadas. Matías é muito introspectivo e reservado parecendo que sempre está com algo engasgado em sua garganta para o desconforto de sua mulher interpretada pela atriz brasileira Renata Calmon. Outro brasileiro no elenco é Felipe Titto, que faz uma breve participação no longa como um vendedor de uma loja. Jerónimo, por sua vez, é mais descolado e parece bem mais confortável na sua própria pele que seu velho amigo, mas nem por isso deixa de soar reservado.

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O filme alterna afetivas cenas da infância dos protagonistas que vão dando pistas de como as coisas eram e do motivo que fizeram elas chegarem onde chegaram com os momentos atuais que são em geral muito mais secos e frios. O diretor é hábil em criar um certo suspense psicológico através da angústia latente dos personagens, em especial, de Matías. O ator Ignacio Rogers é competente no papel central, mas falta mais magnetismo cético para dominar totalmente um personagem tão reservado quanto o dele. Por outro lado, Esteban Masturini soa muito confortável e convincente como Jerônimo.

    Apesar das qualidades, algumas coisas impedem o filme de voos maiores, como o fato da trama ser pouco criativa e um tanto quanto previsível. Por sua vez, os personagens talvez pelo fato de serem introspectivos podem soar por vezes um tanto quanto distante do espectador. O ritmo pausado não chega a ser um grande defeito, porque combina com a abordagem do diretor que vai construindo o clima do filme aos poucos e progressivamente, mas o uso de cenas escuras especialmente próximo ao final do filme para conotar sensualidade soa um tanto excessivo e podia ter sido usado elementos menos óbvios. De qualquer forma, esses fatores não impedem do filme ser um delicado e simpático estudo de personagem que pode conquistar os apreciadores de romances menos melosos e mais próximos da realidade.

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AUTOR DO TEXTO:

EDUARDO PEPE

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