CRÍTICA: ERA O HOTEL CAMBRIGDE (2017)

Por Diogo Domiciano

A população brasileira experimentou mudanças socioeconômicas marcantes que rapidamente transformaram um país essencialmente rural em uma sociedade urbana diversificada. Muitos indivíduos que nasceram em áreas rurais agora vivem em centros urbanos e representam aqueles que sobreviveram a adversidades socioeconômicas significativas ao longo de suas vidas. A concentração da população em grandes cidades trouxe problemas nas periferias dos grandes centros, e a falta de habitação é um deles. O momento habitacional atual é marcado por ações dos grupos de luta por moradia, com ocupações de prédios vazios, choque com as forças policiais e violência nas ações de reintegração de posse. Intensa especulação imobiliária, descaso do governo, resistência da sociedade como um todo, papel explorador da mídia e interesses em manter os benefícios de uma elite privilegiada tornam difícil vislumbrar uma solução para a crise.

Essa realidade miserável é retratada de forma surpreendente no novo longa da diretora Eliane Caffé, Era o Hotel Cambridge. O filme mostra o dia-a-dia de um grupo de sem-teto composto por brasileiros e refugiados estrangeiros recém-chegados ao país, que convivem em um velho edifício abandonado, o antigo hotel Cambridge, situado no centro de São Paulo. Os moradores estão sob constante ameaça de despejo e ainda precisam aprender a conviver entre si e lidar com seus dramas pessoais.

Logo no início, vemos belos planos que ressaltam a grandiosidade do prédio, bem como suas péssimas condições no que se refere à infraestrutura e segurança do imóvel, como paredes sujas e quebradas que trazem risco de desmoronamento, ligações elétricas precárias, acúmulo de lixo e más condições de higiene. Essa abertura é eficiente em ambientar o espectador na paisagem onde a história se desenrolará e apresentar a questão principal de que o filme trata: a crise habitacional urbana.

A abordagem é semidocumental, misturando ficção e conversas que funcionam como depoimentos verdadeiros, filmados em primeiro plano, como se eles falassem diretamente ao espectador.  Os cortes são secos, e a trilha sonora é pontual, porém marcante. O elenco mescla atores profissionais (Suely Franco e José Dumont, ambos excepcionais) e não-atores, que são pessoas que realmente vivem aquela situação. O tom é tão naturalista que fica difícil distinguir o que é atuação e o que não é. Só reconhecemos os atores por seus rostos conhecidos. Os personagens são cativantes e o filme ainda consegue trazer humor, centrado principalmente na figura de dona Carmem (Carmem Silva), espécie de síndica do prédio.

O maior mérito do roteiro é abordar uma situação social brasileira e conseguir, de forma orgânica, contextualizá-la dentro do cenário do mundo globalizado atual, caracterizado por guerras, emigração, refúgio político, xenofobia e miséria social. Indivíduos de diferentes culturas, raças e religiões precisam conviver harmoniosamente em prol de um bem maior. Assim, estão ali brasileiros de diferentes partes do país, libaneses, palestinos, colombianos e congoleses, em um verdadeiro caldeirão multicultural. Nesse sentido, a questão da língua é abordada de forma inteligente ao, por exemplo, não trazer legendas nos momentos em que os estrangeiros estão conversando entre si em suas línguas nativas. Essa estratégia narrativa faz o espectador mergulhar mais profundamente naquela Torre de Babel e experimentar de forma mais intensa como aquelas pessoas se sentem ao não entenderem e não serem compreendidas. E daí vem uma das bonitas mensagens do longa: o entendimento entre eles se dá através da linguagem universal da solidariedade. Mais que isso, a mistura de brasileiros e refugiados ilustra que os dramas humanos são comuns a todos, independentemente de raça, religião e cultura. Isso fica claro em uma das melhores cenas, em que os personagens estão discutindo acerca dos seus planos de resistência à força estatal/policial, e um dos refugiados comenta que todos são no mesmo barco, pois os brasileiros ali são também refugiados dentro do seu próprio país.

Outra grande qualidade do filme é desmistificar a visão maniqueísta e preconceituosa que é vigente em grande parte da sociedade em relação a essas pessoas, vistas como vagabundas, exploradoras e criminosas. A diretora faz isso muito bem, dado o tom realista que humaniza esses indivíduos marginalizados e gera empatia imediata.

Podemos dizer que Era o Hotel Cambridge integra, ao lado de Aquarius e Que horas ela volta?, a lista recente de filmes brasileiros políticos que retratam o Brasil urbano atual, as relações de poder que surgem das diferenças de classes em um sistema econômico selvagem que privilegia uma minoria. Um filme sobre resistência.


Diogo Domiciano

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