CRÍTICA: DIVINAS DIVAS (2016)

Por Eduardo Pepe

 

“Documentário é libelo de liberdade em meio a tempos obscuros de conservadorismo.”

Depois de 20 anos de estreia no cinema com a sua premiada atuação em “A Ostra e O Vento” (1997), Leandra Leal lança em circuito comercial seu primeiro filme como diretora. E a estreia é das mais inusitadas e acertadas dos últimos anos. Trata-se de “Divinas Divas”, documentário que acompanha 8 artistas que foram importantes na presença artística de travestis e transexuais no Brasil. Elas são Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Marquesa e Brigitte de Búzios. Em plena ditadura militar, elas se apresentavam cantando e interpretando em shows, cada qual com seu estilo e proposta. Em comum, todas passaram pelo teatro Rival, um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro.

A trama se inicia na contemporaneidade quando as divas se reúnem para realizar um espetáculo todas juntas no Rival. O teatro é da família da diretora e aí que tudo ganha contornos pessoais. Leandra Leal cresceu naquele ambiente e todo aquele universo e todas aquelas pessoas fizeram parte da sua rotina, de sua família. Com isso, Leandra participa do filme enquanto personagem narrando e contando sua relação com todo o universo apresentado pelo filme. Simultaneamente aos ensaios para estrear o novo espetáculo, conhecemos individualmente a história de cada uma.

@Foto Divulgação Vitrine Filmes

Uma das sacadas do filme reside na forma como é feito o retrato de cada artista. Leandra consegue retratar a intimidade de cada uma delas dando lhe um recorte muito humanizado. Com histórias dramáticas e outras cômicas, o filme envolve o espectador a conhecer e se interessar por cada uma das personagens, todas simpáticas e interessantes. O mais bonito é como tudo isso é passado sem abrir mão de retrata-las com plena dignidade em um retrato honesto e pessoal de cada uma delas.

O caráter pessoal do filme faz toda a diferença, porque assim a diretora consegue passar a perspectiva dela de interesse, comoção e, sobretudo, de certa intimidade, pois a sensação na saída do longa é que cada uma delas se tornou um pouco amiga do espectador. Afinal, foi compartilhado diversos momentos íntimos de alegria e tristeza com o espectador. Dessa forma, ao se inserir no longa a visão de Leandra e do espectador, de certa forma, se fundem.

@Foto Divulgação Vitrine Filmes

Vale destacar também toda a parte técnica do filme, que é muito bem acabado. Destaque para a bela trilha sonora, que pontua o filme sem excessos nos momentos mais delicados. E vale salientar a composição estética do filme, especialmente, no lindo plano-sequência em que a diretora e as oito divas adentram o teatro. O único aspecto que merecia um pouco mais de atenção é a montagem. Com quase 2 horas de projeção, fica a sensação que o filme poderia ser mais enxuto. É compreensível que com a quantidade de boas histórias e performances de cada uma das protagonistas é difícil escolher o que cortar, mas o sentimento de “quero mais” seria maior com um pouco menos de duração. Apesar disso, todos os elementos positivos apresentados no longa configuram uma segurança surpreendente da diretora e fica difícil acreditar que esse seja seu primeiro longa. Agora, resta esperar que seja o primeiro de muitos.   

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AUTOR DO TEXTO: 

EDUARDO PEPE

 

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