CRÍTICA: DE CANÇÃO EM CANÇÃO (2017)

Por Eduardo Pepe

“Diretor americano continua encantando com visual esplendoroso, mas perdeu um de seus principais trunfos; o elo emocional”

O diretor americano Terrence Malick surgiu em meados da década de 70 como uma das grandes promessas do cinema independente americano. Em pouco mais dos seus 30 primeiros anos de carreira, o diretor tinha feito apenas 4 projetos. Entretanto, tudo mudou a partir de 2011 quando lançou “A Árvore da Vida”. A partir disso, sua produção aumentou com ele lançando um novo projeto já em 2012 e agora em 2017 com “De Canção em Canção” ele esta em seu quinto projeto desde sua retomada de 2011.

O estilo dele não mudou; se mantém o tom contemplativo, os personagens depressivos, o uso constante de narração em off e apenas uma fagulha de trama. A forma de filmar, com muita câmera na mão passeando desgovernada entre os personagens, que parecem sempre aprisionados por alguma coisa invisível, e belos jogos de luz que quase sempre usam o contraste da luz do sol, também se mantém, porém nesses últimos anos algo se perdeu. E, infelizmente, era uma das coisas mais poderosas do cinema do diretor; a habilidade de te jogar para dentro da angústia, dor, reflexões e sonhos de seus personagens.

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Mesmo seus filmes não sendo lineares e tivessem apenas um esboço de trama, como é o caso, por exemplo, de “Além da Linha Vermelha” (1998) e “A Árvore da Vida” (2011), Malick dava a possibilidade para espectadores pacientes de uma experiência muito imersiva. Sofríamos com a dor da personagem de Jessica Chastain que perdeu seu filho ou o soldado sumido na guerra feito por Jim Caviezel. Podíamos não ter a noção completa da vida deles, mas as motivações de suas reações eram nítidas e principalmente palpáveis. É isso que falta nas últimas obras de Malick e se mantém em “De Canção em Canção”.

Os protagonistas namoram, terminam, casam e por aí vai, mas o espectador não entende como esses laços se formaram ou o por que foram partidos. Por mais que os personagens tentem se explicar nas narrações em off, tudo soa deveras rápido e picotado demais, o que é estranho num filme de ritmo lento com mais de duas horas de duração.

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A história ou o esboço dela é que Ryan Gosling é um músico de futuro promissor e Roney Mara uma aspirante que sonha em ter alguma oportunidade. Ambos têm relação com o agente musical feito por Michael Fassbender. As coisas se complicam quando ela se envolve com os dois ao mesmo tempo. Cate Blanchett e Natalie Portman irão aparecer mais para frente para aumentar ainda mais o número de intrigas amorosas do filme. Todos os atores são de renome e fazem o que podem, mas falta densidade no roteiro, o que os impede de ir além, apesar de sempre soarem esforçados.

Como se trata de um filme sobre músicos, o filme não tem a trilha sonora de música clássica como é habitual do diretor e abre espaço para ritmos diversificados com destaque especial para o Rock. Diversos músicos e cantores fazem participações especiais, dentre eles, Florence Welch, Iggy Pop, os membros do Red Hot Chili Pepers e Patti Smith, a única que tem uma aparição um pouco maior. Entretanto, nenhum deles chega a acrescentar algo pelo pouco tempo em cena e pela pouca relevância dentro da narrativa.

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O deleite visual, comum nos trabalhos do diretor, se mantém aqui, com a forma particular que o diretor tem de fotografar os atores e a presença de diversas cenas de contemplação de cenários e da natureza. Apesar da beleza, esses momentos não conseguem aproximar o espectador, que se mantém distante dos conflitos dos personagens. Permanecemos sem saber exatamente quais são e o que eles realmente sentem.

Existem algumas cenas que são exceções, como, por exemplo, a cena que o personagem do Ryan Gosling vai apresentar a namorada para sua mãe e elas não se dão bem. O olhar de incomodo delas se olhando durante toda a cena é perceptível e o espectador fica imerso para saber o que aquilo irá gerar. Entretanto, segundos depois o diretor descarta toda aquela tensão em cena resolvendo o conflito rapidamente e joga fora todo aquele núcleo promissor. Essa sequência de certa forma resume o filme; uma ideia muito interessante que não foi aproveitada como podia. Uma pena.

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AUTOR DO TEXTO:

EDUARDO PEPE

 

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