CRÍTICA: CORAÇÃO E ALMA (2017)

Por Diogo Domiciano

 

“Coração e Alma é um belo filme sobre a falibilidade da vida, a fragilidade do ser humano e o caráter transformador do amor, aqui apresentados sob a ótica da profissão médica.”

 

Diante da inevitabilidade da morte, o pensamento sobre ser ou não doador de órgãos surge espontaneamente e, tão natural quanto ele, é a atitude de evitarmos pensar nisso, por medo ou mesmo desinformação. Doar os órgãos é uma decisão baseada em um elevado grau de generosidade. Apesar das taxas de notificação de potenciais doadores continuarem a aumentar, alguns obstáculos impedem o crescimento acelerado deste processo. Dificuldades técnicas na manutenção da viabilidade do órgão, questões burocráticas do sistema de saúde e, mais importante, a recusa familiar para doação.

O cinema já abordou algumas vezes o transplante de órgãos sob diferentes pontos de vista, seja com enfoque no drama emocional do paciente e suas famílias, como em 21 Gramas (2003, de Alejandro González Iñárritu), como crítica social ao entraves burocráticos do sistema de saúde, como em Um Ato de Coragem (2002, de Nick Cassavetes), ou mostrando os meandros sombrios do mercado negro do tráfico de órgãos, como em Coisas Belas e Sujas (2002, de Stephen Frears). O novo longa da diretora marfinense radicada na França Katell Quillévéré, Coração e Alma (no original,  Réparer les vivants), é o mais recente a tratar deste tema. Adaptação de um romance homônimo de Maylis de Kerangal que é considerado uma das grandes obras da literatura francesa, o filme aborda o drama do transplante de coração, e o faz com uma verdade admirável, poucas vezes vista antes no cinema. Na trama, três jovens vão surfar e, na volta, sofrem um acidente de carro que deixa Simon (Gabin Verdet), 19 anos, em estado grave no hospital, mantido vivo somente por máquinas. Os pais do garoto, Marianne (Emmanuelle Seigner) e Vincent (Kool Shen) precisam decidir rapidamente se doam ou não os órgãos do filho. Em um segundo momento, acompanhamos o drama de Claire (Anne Dorval), uma mulher com uma doença cardíaca terminal que aguarda um transplante de coração.

@Foto Divulgação Coração e Alma

Conseguindo alternar de forma fluida o drama íntimo familiar e os pormenores técnicos do ponto de vista médico envolvidos no processo, a diretora é hábil em apresentar o assunto de forma orgânica e emocionante sem soar piegas e cair nas armadilhas fáceis do melodrama para fazer o espectador afogar-se em lágrimas de tristeza. A emoção aqui surge de forma genuína a partir da delicadeza do tema e da sensibilidade do filme em seus múltiplos aspectos. Merecem destaque a fotografia, que aposta em cores frias e traz dois belos raccords que apresentam o mar como simbolismo do fim e recomeço da estrada da vida, e a edição, que não prolonga cenas de sofrimento e evita clichês comuns do gênero. Apresentando sutis porém tocantes rimas visuais a partir da comunicação pelo olhar de personagens importantes no início e fim do filme, as cenas são embaladas por um trilha sonora de Alexandre Desplat que não se mostra excessiva nem melodramática demais. O elenco inclui nomes conhecidos do cinema francês, com destaque para Emmanuelle Seigner interpretando a mãe desesperada diante da decisão mais difícil de sua vida; Tahar Rahim, que exibe ternura como o médico que tem a delicada e necessária tarefa de falar com a família sobre a doação dos órgãos, e Anne Dorval, como a mulher resignada com sua condição terminal de saúde, que vê suas esperanças revigoradas pela possibilidade de um novo coração.

 

@Foto Divulgação Coração e Alma

O maior mérito do roteiro, até certo ponto surpreendente, é o seu olhar enaltecedor para a medicina: os profissionais da saúde aqui são apresentados como indivíduos cuja extraordinária habilidade técnica é movida pela compaixão e empatia, ao mesmo tempo em que são seres humanos dotados de carências, sonhos e desejos como quaisquer outros. Em tempos em que a mídia sensacionalista adora vilanizar os médicos, é louvável lidarmos com uma obra que faz justamente o contrário e reconhece o seu valioso trabalho a serviço da vida humana. Diversos profissionais estão envolvidos no delicado processo que envolve os cuidados intensivos do paciente que apresenta morte encefálica, a decisão da família em concordar com a doação, a captação do órgão do doador e seu transporte até o local do transplante. Todos esses passos são retratados com verossimilhança e encantamento pela câmera da cineasta. As cenas dos procedimentos cirúrgicos são filmadas com uma beleza crua, sem romantismos. Esses momentos contrapõem muito bem a enorme carga dramática envolvida nas histórias dos personagens.

@Foto Divulgação Coração e Alma

Em resumo, Coração e Alma é um belo filme sobre a falibilidade da vida, a fragilidade do ser humano e o caráter transformador do amor, aqui apresentados sob a ótica da profissão médica. O último plano do filme, simples e belíssimo, simboliza exatamente a enorme capacidade que o ser humano tem de renovar suas esperanças e enxergar a beleza de estar vivo.

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AUTOR DO TEXTO:

DIOGO DOMICIANO

 

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