CRÍTICA: BINGO – O REI DAS MANHÃS (2017)

Por Cadu Costa

 

“A VIDA NÃO É BRINCADEIRA MESMO “
Baseado na vida de Arlindo Barreto, o eterno palhaço Bozo, Bingo: O Rei das Manhãs estreia nesta semana e vai muito além de uma simples biografia. É um manifesto, uma prova de como podemos ser corrompidos pelo sucesso, fama e dinheiro mas também ser possível se salvar, se reconhecer, se libertar, sobreviver. Quem tem menos de 25 anos pode não se lembrar mas, Bozo era um palhaço que apresentava um programa infantil no SBT e chegou por diversas vezes a ultrapassar a audiência da Rede Globo. Por trás do palhaço estava o ator Arlindo Barreto, conhecido ator de pornochanchadas na década de 70. Barreto é tão reconhecido como Bozo como pela vida tresloucada. Consumiu drogas, dormiu com muitas mulheres, se elevou ao extremo e ao abaixo da fama. Após quase morrer, se converteu e virou pastor.
Mas, é essencial ressaltar: Bingo é a história de vida de Arlindo Barreto e não do personagem Bozo, sucesso indescritível e parte da memória da televisão brasileira.
@DIVULGAÇÃO WARNER BROS
Mas, vamos ao filme. Bingo é simplesmente espetacular como obra narrativa. E Vladimir Brichta, com certeza, é o Bingo. O ator está estupendo, encarna um personagem poderoso, ágil e engraçado. Aqui, Vladimir interpreta o ator Augusto Mendes, conhecido por trabalhos nas pornochanchadas da época. Querendo alcançar o sucesso de todas as formas, se candidata para participar de uma seleção de elenco de um programa infantil. Esta cena, aliás, é uma das melhores coisas vistas em anos no cinema. Ao conseguir o papel do palhaço Bingo, Augusto transforma a programação infantil e conhece a fama e sucesso que tanto buscava. Mas isso tem um preço. E ele é alto.
Com essa história, o diretor Daniel Rezende –  conhecido montador de obras como Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007) – e sua equipe fizeram um filme belíssimo. Tudo funciona em uma singular sincronia. Somos transportados para os anos 80 em todas as suas formas. Mérito disso para o trabalho de arte com detalhes de figurino, trilha sonora perfeita e ideias geniais como os créditos e legendas nos lembrando ao videotape e chamar a Rede Globo de TV Mundial.
@DIVULGAÇÃO WARNER BROS
Não sei como dizer mais do já dito, mas Vladimir Brichtta é a alma do filme. Não por ser o protagonista mas por ser impossível tirar os olhos dele. Suas tão diferentes nuances com ou sem maquiagem nos movem, nos guiam pela história. O seu Bingo é uma força da natureza: incontrolável e sem limites. E Brichta entrega isso de forma tão visceral que cheguei a acreditar ter visto o Bingo e não Bozo durante minha infância. Os outros atores estão ótimos também. Leandra Leal interpreta Lúcia, a religiosa diretora do programa. Sua interpretação sem a estereotipagem dos crentes mostra o quanto a atriz é grande. Augusto Madeira como o câmera e amigo do personagem principal é engraçado e tem ótimas sequências com Brichta. O ator Domingos Montagner, morto em setembro de 2016, faz uma breve e emocionante participação especial em “Bingo”. No filme, ele encara um palhaço que ensina os truques da profissão para Augusto Mendes. Na “vida real”, Montagner começou sua carreira no circo e seguiu na arte circense até o fim.
E a direção de Rezende é segura, presente, notável. Duas cenas me chamaram muita atenção pela beleza: um momento onde Augusto segue por um corredor escuro com as luzes se apagando e também quando Augusto e sua mãe conversam e ao final, ela apaga a luz de seu retrato jovem. Tudo aqui é um símbolo de fim, de amargura. É lindo. É grandioso.
Em última análise, Bingo – O Rei das Manhãs, é um filme maravilhoso que vai além de uma simples biografia (existentes aos montes). Vai além. Assim como Bozo foi, Bingo pode ser uma memória inesquecível do nosso tempo.
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FICHA TÉCNICA:
 
BINGO: O REI DAS MANHÃS (2017)
Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi
Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Tainá Müller, Ana Lúcia Torre, Augusto Madeira, Emanuelle Araújo, Pedro Bial, Domingos Montagner
Gênero: Comédia, Drama
Distribuição: Warner Bros
Estréia: Dia 24/08/2017
Sinopse: Augusto (Vladimir Brichta) é um ator de pornochanchadas que busca seu lugar nas grandes produções.  Um dia tem a chance de tornar Bingo, um palhaço apresentador de um programa infantil de TV. O sucesso é imediato e com ele vêm uma vida boêmia sem limites. O preço da fama é caro e afeta sua família e seu ego. Augusto passa a lutar pelo reconhecimento de seu trabalho e sua própria busca pela real felicidade.
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AUTOR DO TEXTO:
CADU COSTA
Lapa – 21 97945-0704
 

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