CRÍTICA: AO CAIR DA NOITE (2017)

Por Alysson Melo

 

“Ao cair da Noite” é um horror psicológico e tenebroso que mexe não só com nossos nervos, mas também com nossos cérebros”

 

 

Nos  últimos anos o gênero horror/terror vem se consolidando com um dos gêneros que tem mais crescimento de público nos cinemas brasileiros visto que boas produções embarcaram por aqui no Brasil. Exemplos como: “A Visita”,  “Invocação do Mal 2”“A Autópsia” etc. Muito se foi falado sobre filmes que exageram nos jumpscares e nos sustos forçados, assim como o terror sanguinário onde se vê só mais a matança e muito sangue do que o propriamente dito o terror. E eis que vem chegando produções que trazem algo novo e diferente que são os filmes com terror psicológico- aquele filme que traz conflitos entre os personagens que trazem certa tensão e apreensão e que mexe com nosso sistema nervoso não pelas cenas de sustos aos quais são poucas, mas sim no horror vivido dentro da narrativa, em grande parte no emocional e no conflito de personalidades, assim como é mostrado no ótimo “A Bruxa (2016) e no mais recente “Fragmentado” (2017). Agora eis que chega um novo longa com essa mesma pegada: ” Ao  Cair da Noite” do diretor Trey Edward Shults  apresenta uma boa produção que dará continuidade a esse tipo de terror que tanto está crescendo nos últimos tempos.

A história é bem simples e contada pelo ponto de vista de uma família aterrorizada por um medo sem rosto, sem corpo e sem rastros. Vemos a vida de Paul (Joel Edgerton) que mora com sua esposa e o filho numa casa grande, espaçosa e bem segura. Após o seu genro ficar doente com uma doença misteriosa Paul decide mata-lo para não desencadear um vírus entre eles, até que chega um estranho que invade sua casa em busca de água para a esposa e filho, mesmo relutante ele decide acreditar no homem e resgatar-los e os acomodando em sua própria residência. Tudo vai bem até que aos poucos, situações estranhas começam a acontecer dentro da casa e aos poucos a paranoia e desconfiança vão aumentando e Paul vai fazer de tudo para proteger sua família contra algo que vem aterrorizando todos.

@Foto Divulgação Diamond Films

A direção ficou no comando de Trey Edward Shults que dirigiu o longa“Krisha” (2015). Aqui o diretor retorna em melhor estilo. Ele conseguiu tirar toda a essência necessária para criar um arco entre os personagens que fizesse com que fosse bem mexido no apelo psicológico. Ele trouxe um mão firme, audacioso e emocional, de maneira que os atores se entregam aos seus respectivos caracteres boas performances aos olhos do cineasta, que também é o roteirista da narrativa e deixa tudo tão realista e convincente que a sua firmeza e audácia logo se torna um trunfo para o longa e de como essas relações mexerão com o expectador.

No elenco de protagonistas temos o ator Joel Edgerton que esteve recentemente no aclamado “Loving”, o ator traz uma característica bem funcional em seus trabalhos que é se entregar ao papel e vivenciar da maneira mais real possível tudo o que o personagem está vivenciando e aqui não poderia ser diferente Joel nos entrega uma boa atuação regada a muita sensibilidade, autonomia e emoção. Sua parceira de cena temos a atriz Carmem Ejogo  que esteve já nos cinemas esse ano no “Alien Covenant”. Ela conseguiu lidar muito bem com as duras cenas que teria que enfrentar dentro do enredo e se sai muito bem, principalmente nas cenas onde envolve grande mote emocional e na frieza de sua personagem no que vai se mostrando mais forte do que aparenta ser e isso vai crescendo com a continuidade da história. O grande destaque vai para o ator Kelvin Harrison Jr. que atuou no recente “O Nascimento de uma Nação” ele que rouba todas as cenas aos quais aparece, atuando muito bem e de uma maneira bem visual e caracterizada, Kelvin mostra que carregar o filme nas costas se deve ao bom trabalho junto a produção para captar o seu melhor lado e no caso, mostrar todo o mal envolto a ele. Todas as suas características de um menino sensível, tímido e perspicaz de uma forma bem eficiente e dentro dos parâmetros de entoar o medo e de ser o medo fazem dele uma das boas surpresas do filme.

@Foto Divulgação Diamond Films

O roteiro escrito pelo Trey Edward Shults que além de dirigir, trouxe toda a ideia do longa e nos apresentou uma boa inovação no gênero onde o horror é mais terror quando se tem poucos sustos e isso vem ganhando força nas últimas produções hollywoodianas do gênero. Trey faz aqui um trabalho bem autoral em contar uma história que vai crescendo aos poucos e que possui ápices de tensão, tortura psicológica e medo. O enredo vai deixando varias brechas para questionamentos e duvidas do expectador, trabalhando muito no seu visual e em certas atitudes que devem ser bem visualizadas para não perder nenhum deslumbre. Poderia ser mais uma história simples de terror e cair no esquecimento se não fosse o seu trabalho grandioso nos detalhes que se bem observados fazem todo o sentido e consegue-se captar toda a essência que o cineasta quis nos passar.

“Ao cair da Noite” é um horror psicológico e tenebroso que mexe não só com nossos nervos, mas também com nossos cérebros – porque é um tipo de filme que mais entrega situações e nos deixa dúvidas do que traz respostas. A história contada aqui é bem crua, fria e impiedosa. Analisando aqui vemos muito o lado humano e as suas relações e de como essas relações interagem entre si de forma que familiares e estranhos competem entre si em busca de descobrir o verdadeiro mal, mesmo eles não sabendo a origem desse mal. Algumas pontas vão sendo soltas aqui e ali e o longa possui uma boa teoria do que a história realmente significa e poderia ser mostrada, mas não mostra podendo acabar desapontando o público mais afinco por filmes com desfecho auto-explicativo. O enredo traz vários temas como a frieza entre relações, a psicopatia e loucura desenfreada, insônia, medo, sonambulismo, horror e tensão, devoção familiar e adrenalina pós traumática.

@Foto Divulgação Diamond Films

 

O Final poderia sim, ser melhor – onde é mostrado de forma bem crua e simples, mas ainda assim é um desfecho funcional e conclusivo. É uma nova forma de encarar as coisas com outros olhos, abra bem os olhos, observe os detalhes e se desafie a ver o que não é explicado. Porque para que explicações ?se após o fim você mesmo encontrará suas próprias conclusões.

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AUTOR DO TEXTO:

ALYSSON MELO

4 comentários em “CRÍTICA: AO CAIR DA NOITE (2017)

  • 25/06/2017 em 18:37
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    É tão difícil hoje em dia ter filmes nesse gênero que me agrada, mas fiquei com vontade de assistir a esse filme. Amei a crítica, muito eloquente e instigante. =]

  • 24/06/2017 em 16:59
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    Bela crítica, Alysson! Me deixou anomado com o filme, especialmente sabendo que segue a linha de longas como A Bruxa e Fragmentado.

  • 24/06/2017 em 01:42
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    Realmente, o final cortou muito do nada o crescente que estava o filme 🙁

  • 23/06/2017 em 23:29
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    Feliz com o retorno da produtividade dos bons filmes de terror. Genero que estava meio deixado de lado nos últimos anos, com muita coisa formulaica e repetitiva.

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