CRÍTICA: O RASTRO (2017)

Por Diogo Domiciano

 

O Rastro, filme do diretor estreante em longas metragens J.C. Feyer e escrito pelos roteiristas André Pereira e Beatriz Manela, traz uma história cheia de reviravoltas que se passa dentro de um hospital em ruínas no Rio de Janeiro. Embora louvável por apostar em um gênero pouco comum no cinema nacional, o terror sobrenatural, o melhor dessa ideia é o forte pano de fundo social que fundamenta a história. Semelhante à abordagem de um filme recente, o anglo-iraniano Sob a Sombra (2016), de Babak Anvari, o terror funciona como metáfora de uma situação social cruel e opressora. Se naquele filme os vilões eram a guerra e o machismo que vitimiza a mulher na sociedade muçulmana, aqui o vilão é bem brasileiro e conhecido de todos nós – o caos do sistema de saúde público brasileiro. Afundado em burocracia, corrupção e dominado por interesses políticos obscuros, a crise da saúde pública enlouquece a todos os diretamente envolvidos: médicos, enfermeiros, pacientes, diretores clínicos e administradores. O fantasma mais assustador dessa história não vem de outro plano ou dimensão; pelo contrário, é o governo e seu descaso com a saúde da população.

Na trama, João Rocha (Rafael Cardoso) é um médico encarregado de comandar uma operação de transferência de pacientes de um antigo hospital carioca prestes a ser desativado. O fechamento da instituição vai de encontro à vontade de Heitor (Jonas Bloch), o diretor clínico que trabalha ali há mais de 50 anos. Ocorre que, na noite da remoção, uma paciente de onze anos desaparece sem deixar rastros. A partir daí, João entra em uma espiral de loucura e obsessão na tentativa de encontrar a menina que estava sob sua responsabilidade. Ele conta com a compreensão de sua esposa Leila (Leandra Leal), grávida do primeiro filho do casal, e a ajuda de Olívia Coutinho (Cláudia Abreu), médica intensivista do hospital.

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O filme acerta na construção do clima, amparado pelo ótimo elenco, com destaque para a (sempre) excelente Leandra Leal, que assume o protagonismo da história em sua segunda metade. Rafael Cardoso, por outro lado, consegue imprimir convincentemente a angústia crescente do jovem médico diante das descobertas sinistras com que é confrontado. O desespero fica estampado nas faces dos personagens, sempre cansados e carregados de suor, vítimas do calor escaldante da cidade, trabalhando em um lugar com péssimas condições. Como definiu o próprio diretor, trata-se de um terror tropical. A competente fotografia brinca com a escuridão que se reflete sobre a jornada do protagonista, e a direção de arte utiliza muito bem os elementos do ambiente sombrio (o longa foi filmado em um hospital de verdade) para criar uma apropriada atmosfera de suspense.

A conjuntura crítica da saúde pública é representada de forma bastante crível na maior parte do filme. Os principais aspectos estão lá, muito bem representados em cenas emblemáticas: a burocracia nociva, a má administração de recursos, o descaso político e falta de investimentos, a corrupção que privilegia os mais ricos, a má remuneração dos profissionais de saúde, a inutilização de equipamentos diagnósticos (como aparelhos de tomografia ou ressonância magnética) abandonados por falta de instalações adequadas ou mesmo desinteresse. Até mesmo o último plot twist do filme, que aqui foge da verossimilhança e exige do espectador uma alta dose de boa vontade para acreditar que aquilo seja plausível do ponto de vista médico, corrobora fortemente seu viés crítico.

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O grande problema do longa é a abordagem empregada pela direção, que abusa de clichês e sustos fáceis, embalada uma trilha sonora excessiva. Há jump scares por todo lado, alguns inacreditavelmente estúpidos e descontextualizados. Além disso, o elemento sobrenatural acaba revelando-se um recurso preguiçoso e até inútil em um roteiro que tem lampejos de muita criatividade. Não fosse a ótima crítica social que nunca fica em segundo plano, o filme seria mais um exemplar bem genérico do gênero.
Contudo, ainda que amparado em alguns recursos bastante artificiais, O Rastro merece ser apreciado, pois consegue expor com eficiência uma problemática pungente em nossa sociedade: a decadência do sistema de saúde pública no Brasil.

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AUTOR DO TEXTO:

DIOGO DOMICIANO

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