Crítica .:: Amores Urbanos (2015)

Por CLEBER ELDRIDGE.

Para os mais desavisados Vera Egito é esposa do ótimo Heitor Dhalia, quem não sabe quem é o diretor, se faça o favor de procurar sua filmografia e assistir seus filmes, pois é ele, um dos melhores diretores da atualidade, se tratando do cinema nacional – é com Amores Urbanos, que sua esposa estreia na direção. A “crise dos 30” é um momento que afeta a vida de muitas pessoas que já passaram por diversos dilemas, como desilusões amorosas, crise profissional e familiar, sendo um momento em que os “jovens adultos” se encontram em um território de incertezas.

O filme gira em torno da vida de Julia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit) e Micaela (Renata Gaspar), três amigos que moram no mesmo prédio em São Paulo. Julia sofre uma desilusão amorosa, uma crise em seu atual emprego de assistente de moda e precisa lidar com a crítica dos pais, que sempre bancaram os seus sonhos. Diego é um jovem homossexual que foi expulso de casa e divide os seus dias entre as amigas, noitadas e um namoro que está se tornando sério; porém, Diego não é um namorado fiel e costuma sair com outros caras. Já Micaela (Renata Gaspar) namora Duda (Ana Cañas). Enquanto Micaela expõe a sua sexualidade sem grilos, Duda é uma mulher reservada e muitas vezes trata a namorada como amiga quando está perto de outras pessoas. Enquanto lidam com seus dramas, o trio discute assuntos relacionados ao cotidiano de pessoas de 30 anos, regado a música, festas e álcool.

Os diálogos possuem muitos momentos de silêncio imprimindo uma carga de dureza e sensibilidade, mostrando as incertezas e a falta de profundidade, assim como o momento exato pelo qual os personagens estão passando. Julia é uma personagem que se ilude facilmente e possui falta de foco na vida, sendo dispersa, e percebemos o seu drama na cena em que ela tem uma discussão com os pais, tentando explicar a profissão e o porquê ainda não deu certo, mesmo os pais tendo investido em sua carreira. Os trejeitos de Julia ao postar as suas fotos no Instagram, o trio conversando sobre assuntos que veem online em seus celulares, sem olhar para a cara do outro, também são traços de identificação com a geração nos dias de hoje. A atriz Renata Gaspar foi um grande presente, trazendo uma Micaela completa, dosando os momentos de drama e humor com caras e bocas certeiras. Ana Cañas também fez uma boa estreia, com a sua Duda de sexualidade mal resolvida.

O filme também conseguiu transmitir a sua aura pop-indie-cult, universo em que o trio está inserido. Enquanto conversam e tomam as suas bebidinhas, ouvem-se músicas indies, como a de Céu e do próprio Pethit. A cenografia também caprichou nos objetos de cena, como a cabeça do veado na parede – artigo que está super na moda entre os jovens dessa idade – as cores mixadas entre o cinza, o preto e o azul nas paredes, nos móveis e no figurino. Inclusive, a direção de arte caprichou neste aspecto, pois a paleta de cores utilizada ao longo de todo o filme e o cenário e figurino clean nos dá a impressão de um ambiente urbano, imprimindo a frieza e a fragilidade das relações que transitam nestes locais. As cenas possuem cortes bruscos e rápidos entre elas e esse artifício foi utilizado de uma forma muito interessante para realçar a identidade da obra.

Nota .:: 6.5

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