CRÍTICA: A VIGILANTE DO AMANHÃ: GHOST IN THE SHELL (2017)

Por Guilherme Zirbel

A ansiedade era grande. Quando anunciaram que Ghost in The Shell, um dos mais representativos e famosos mangás do mundo, seria transformado em filme, produzido e distribuído por um estúdio americano (a Paramount e DreamWorksPictures), os fãs tremeram. Grande parte deles de medo, já que poucas adaptações de mangás e animes foram bem sucedidas no cinema (o pavoroso “Dragon Ball Evolution”, de 2009, não deixa ninguém mentir) e o estigma existe. Enfim, com muita demora, 2017 chegou e trouxe junto “A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell” (mais uma das inexplicáveis traduções para o Brasil que nunca se justificam), dirigido por Rupert Sanders e estrelado por uma das figuras mais populares da atuação dos últimos tempos, Scarlett Johansson. Será que tudo valeu a pena? A resposta é “sim”.

Em 2029 (um ano, estranhamente, próximo demais), as empresas de tecnologia já fazem muito do que hoje somente imaginamos: inteligência artificial está entrelaçada totalmente com a materialidade mortal dos humanos. Major (Johansson) é apenas uma cápsula robótica com um cérebro humano, cuja dona anterior morreu (o trocadilho “ghost in theshell” nasce daí, e literalmente significa “fantasma na concha”; no filme é traduzido como “alma no molde”, o que encaixa muito bem com o significado do conjunto complexo entre mente e engrenagens). Ela “trabalha” para uma empresa de segurança cibernética e não mede esforços ao investigar um misterioso hacker com intenções preocupantemente homicidas. O que não consegue entender é o motivo de estar, eventualmente, tendo “falhas”: visões de um passado que não se recorda parecem dizer alguma coisa importante, que precisa ser decifrada.

Talvez não seja a premissa mais original que exista, afinal a quantidade de filmes que tratam do que as máquinas realmente “sentem” (ou podem sentir) é bastante grande (“Eu, Robô (2004)”, “AI – Inteligência Artifical (2001)” e “O Homem Bicentenário (1999)” são somente alguns deles). O diferencial é justamente o tom: enquanto esses filmes se focam em um futuro distópico e quase sempre dificílimo de acontecer, “A Vigilante do Amanhã” traz com muita segurança uma cidade totalmente crível. Ao invés de carros voadores, teletransportadores, raças e línguas bizarras, o que se vê são elementos bastante conhecidos do nosso dia-a-dia: hologramas, carros velozes e/ou sucateados, robôs que substituem ações humanas e empresas sedentas pelo poder. É essa aproximação com o nosso mundo atual que faz a diferença. Em nenhum momento deixamos de acreditar que aquilo é impossível de acontecer e sabemos, no fundo, que essa hora chegará em breve.

Com um ritmo acelerado e na medida, a trama se desenvolve natural e crescentemente. Tirando um ou outro momento em que as ações de certos personagens se tornam um pouco apressadas demais ou até mesmo previsíveis, as quase duas horas passam voando e deixam um gosto de quero mais. Rupert Sanders dirige cenas de lutas, perseguições e espionagem com uma segurança de quem acredita e gosta do que está fazendo (e pensar que ele foi o responsável pelo chatíssimo “Branca de Neve e o Caçador”, de 2012). Juntam-se ao seu trabalho uma linda fotografia que oscila entre a total saturação de cores e a palidez dos tons cinzas e beges (destaque para a linda cena em que Major conversa com uma humana e pergunta como é a sensação de ter os lábios tocados pelos dedos de outra pessoa) e a trilha sonora, que é ao mesmo tempo moderna (que lembra o ótimo trabalho que a famosa dupla de DJs franceses Daft Punk fez para “Tron: O Legado (2010)”), elegante, minimalista e orgânica, com coros pontuais e marcantes. Os efeitos especiais são um show à parte: o realismo é imbatível e muito bem feito. A cena inicial, da criação de Major, e o ataque das gueixas-robôs-hackers-assassinas são plasticamente inesquecíveis.

Scarlett Johansson está ótima como Major e traz à personagem a perfeita combinação entre dureza robótica e incerteza e curiosidade humanas. Certamente foi uma feliz escolha para o elenco e faz toda a polêmica envolvendo a ausência de uma protagonista oriental ser esquecida.  É impossível lembrar de uma outra ótima escolha da atriz: o excelente “Sob a Pele (2013)” é uma ficção científica que encaixa nela como uma luva. Juliette Binoche é uma grande, agradável e inesperada surpresa que nunca deixa a Dra. Ouelet, que tem uma ligação muito pessoal com Major, desinteressante e apática.

No final das contas, “A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell” é uma história que toca em assuntos que interessam a todos: o que nos faz humanos e o que nos torna, com o tempo, máquinas.


Guilherme Zirbel

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