CRÍTICA: A MULHER DO PAI (2017)

Por Eduardo Pepe

 

“Diretora estreante faz retrato sutil de relação obscura entre pai e filha”

 

A diretora Cristiane Oliveira realiza uma delicada estreia em longa-metragem ao contar a história de uma jovem e seu pai que moram em uma pequena cidade no sul do país que faz fronteira com o Uruguai. A jovem Nalu, virgem e em processo de descoberta da sexualidade, se interessa por um jovem de fora que está de passagem pela cidade. Seu pai é cego e vive um estágio de muita introspecção e mau humor e tenta manter a filha sob rédeas curtas. A rotina dos dois é alterada com a maior presença na vida deles da professora da jovem que passa a gerar interesse no pai. O filme segue a passos calmos e sem pressa as descobertas da menina e as redescoberta do pai enquanto eles entre si vão tentando se reconectar emocionalmente. O filme é muito sensorial e vive de cenas muitas vezes silenciosas que mais insinuam do que mostram tudo concretamente. Nesse sentido, fica um pouco no ar algumas minúcias das relações dos dois.

A jovem protagonista Maria Galant é uma atriz mirim competente e funciona ao transmitir ser uma menina cheia de inquietações e com vontade de ir além daquele cenário a qual ela esta acostumada. Ela quer ir além das fronteiras. Mas a melhor atuação do filme é mesmo Marat Descartes na pele do pai. Tanto a parte física do parecer mais velho e cego quanto as rachaduras emocionais do personagem, que esconde um passado sofrido, o ator consegue se expressar com extrema naturalidade e presença em cena. A atriz uruguaia Verónica Perrotta que interpreta a professora funciona ao ser uma espécie de contraponto dos per se mostrar mais solta, alegre e expansiva que eles.

@Vitrine Filmes

O longa também é favorecido por uma fotografia bem trabalhada que dá uma mistura de suavidade e melancolia que permeia o filme e ajuda na construção dramática em diversos momentos. A direção de fotografia é da premiada Heloísa Passos. Ela, inclusive, foi convidada a participar do corpo de membros do Oscar esse ano.

Em suma, é uma estreia promissora para a diretora. Mesmo que ao fim da sessão fique a sensação que os temas poderiam ter sido mais aprofundados e a trama ter ido mais longe, a delicadeza com que a diretora retrata as situações conota um talento potencial notável. O filme teve uma carreira boa em festivais nacionais e internacionais. Dentre os feitos, o filme foi exibido no festival de Berlim desse ano e venceu 3 prêmios no festival do Rio, incluindo, Melhor Direção e Fotografia.

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AUTOR DO TEXTO:

EDUARDO PEPE

 

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