CRÍTICA: A GLÓRIA E A GRAÇA (2017)

Por Alysson Melo

Estamos vivendo uma era onde a diversidade está sendo retratada de forma linear. Temas como sexualidade, homossexualismo, e transgêneros, que antes eram tratados de forma bem genérica e pejorativa, estão em outro patamar, com vários filmes e séries atuais, como ‘Moonlight: Sob a Luz do Luar’, ‘Sense 8’, etc. Eles trazem uma nova maneira de abordar esses assuntos, que anteriormente eram tabu.

 ‘A Glória e a Graça’ era um projeto antigo do roteirista Mikael de Alburquerque, que escreveu o roteiro e convidou Carolina Ferraz para interpretar uma personagem trans. Ela então entrou como produtora há 9 anos e vem lutando, desde então, junto com Mikael, fazer o filme acontecer.

Após várias mudanças no roteiro e as entradas do diretor Flavio R. Tambellini e da atriz Sandra Coverloni, tudo finalmente aconteceu.

 O enredo fala sobre a história de uma mulher chamada Glória (Ferraz) que vive a sua vida normalmente como uma mulher trans – vida essa bem sucedida no trabalho e nas relações pessoais. Tudo muda quando sua irmã Graça (Sandra Coverloni) entra em contato, após 15 anos sem se falarem, e conta que está com uma doença terminal. Sugere que a irmã que cuide dos seus filhos quando vier a partir. Gloria terá que rever todos os seus conceitos sobre família e a maneira como ela encara o mundo.

 O diretor Flávio (conhecido pelo seu trabalho como produtor, diretor e roteirista de seu último longa, ‘Malu de Bicicleta’ de 2010, e que recentemente produziu ‘Vidas Partidas’, 2016, ‘Campo Grande’, 2015, e ‘Muitos Homens num só’, 2014) soube usar seu conhecimento na arte em comandar atuações e nos trouxe um trabalho delicado, genuíno e sincero.

Conseguiu, ainda, dar boas doses de enquadramento, o uso da iluminação, imagens minimalistas – por vezes cruas – e por outras sutis e simples, sejam nas filmagens quanto na montagem e direção de arte, juntamente com MIkael.

 A atriz Carolina Ferraz (conhecida pelo seus trabalhos em novelas da Globo como ‘História de Amor’, ‘Rei do Gado’, e pelo  seu último trabalho no cinema: ‘Crô: O Filme’, 2013) traz aqui o seu melhor trabalho já feito. A atriz soube comandar bem em sua atuação e montar um personagem bem real e verdadeiro próximo da realidade, sem soar falso ou caricato. Teve que usar prótese dentária e as filmagens foram realizadas logo após ela ter o seu filho, o que deu à ela um aspecto inchado e encorpado, que era importante ao papel. O diferencial está em ser uma atriz interpretando uma trans e não um ator, como geralmente é feito. Aqui, você não enxerga Carolina Ferraz, e sim Gloria. 

 Dando Destaque e ênfase, junta-se ao elenco a atriz Sandra Coverloni (que esteve recentemente no longa ‘Tudo o que aprendemos juntos’) traz toda a melancolia e a dor de alguém que sabe que irá morrer – seu tom de voz, forma de olhar e se portar em cena mostra o quanto gratificante foram esse trabalho e preparação: tudo para dar o tom necessário para a personagem.

 A novidade é a presença de uma atriz trans, interpretada pela atriz e jornalista Carol Marra. Ela, que teve o seu primeiro papel na série ‘Romance Policial- Espinosa’ no Canal GNT em 2015, está aqui no seu primeiro longa metragem.

 Carol atua de forma satisfatória e traz uma boa inovação em personagens trans serem interpretadas por atrizes trans, algo que não é muito comum em produções do gênero, seja na televisão ou no cinema. 

 A trilha sonora é um dos destaques e mescla músicas alegres e vibrantes com tons mais graves e melancólicos. A fotografia é bem aproveitada com uso de cores vivas e coloridas e explora bem as áreas externas com muita precisão e potencialidade.

 O roteiro deixa as coisas em aberto e em alguns momentos não explora coisas que poderiam ter feito mais sentido se tivessem uma resposta. O roteiro está longe de ser ruim, mas poderia ter sido melhor aproveitado. Faltou um pouco de ousadia e um tom mais dramático em alguns arcos que não foram bem construídos.

 ‘A Gloria e a Graça’ é um filme que traz um tema pesado, difícil e dramático que se difunde com a transexualidade (como uma trans pode vir a ser mãe), assim como o rancor, bullying e o preconceito. O resultado final é um bom filme que irá agradar por sua história que nos faz refletir sobre o poder do afeto, a necessidade de perdoar, ter amor ao próximo e a encarar desafios que a vida lhe propõe. É um filme necessário pela sua representatividade e apoio à causa LGBT.


ALYSSON MELO

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