CRÍTICA: A AUTÓPSIA (2017)

Por Diogo Domiciano

 

Em 2016 um sopro de renovação atingiu um dos gêneros cinematográficos mais desgastados por fórmulas e clichês: o terror. Vimos alguns ótimos trabalhos que aportaram nos cinemas, com destaque para o excepcional A Bruxa (de Robert Eggers), o apavorante sul-coreano O Lamento (de Na Hong-jin) e o interessante anglo-qatariano Sob a Sombra (de Babak Anvari). Agora, em maio de 2017, chega aos cinemas brasileiros um novo exemplar do gênero que merece atenção: A Autópsia, do diretor norueguês André Øverdal (responsável por O Caçador de Trolls, 2010), exibido com sucesso em alguns festivais.

A trama traz Austin Tilden (Brian Cox) e Tommy Tilden (Emile Hirsch), pai e filho que trabalham como legistas em um necrotério de uma pequena cidade da Virgínia, nos EUA. Certa noite, o xerife da cidade traz o corpo de uma misteriosa jovem encontrado semienterrado no porão da casa de uma família que havia sido brutalmente assassinada. O cadáver, muito bem preservado e sem sinais óbvios de violência externa ou doença, é levado para autópsia. No entanto, o que os Tilden descobrem no corpo à medida que avançam nos procedimentos é demasiado macabro e desperta forças malignas que vão atormentar pai e filho noite adentro.


Um dos maiores méritos do longa é a habilidade do diretor em explorar o ambiente único em que a história se passa para nos transmitir a sensação de claustrofobia necessária ao suspense que o filme pretende criar. Logo de início, a câmera passeia pelos corredores do necrotério em pequenos travellings que servem para ambientar o espectador e criar um desconforto inicial pela frieza e morbidez do lugar. Além disso, merece destaque a estratégia de criar o medo ao sugerir o horror muito mais do que mostrá-lo explicitamente, e nisso a direção é bastante competente. O filme consegue fugir dos clichês do gênero na maior parte do tempo, especialmente em sua primeira metade. Não há muitos jump scares nem uma trilha sonora excessiva. Os dois atores estão excelentes em seus papeis e a química entre eles funciona para que acreditemos em uma relação familiar genuína e possamos nos importar com os destinos de seus personagens. A maquiagem merece aplausos, pois as cenas da autópsia são representadas com um realismo brutal e assustador.

O roteiro é enxuto e, apesar de não trazer grandes inovações, é eficaz ao conferir certas diferenças de personalidades entre pai e filho, tornando-os menos superficiais e facilitando a identificação com o público. Além disso, ele utiliza algumas soluções interessantes para evitar artificialidades, como, por exemplo, ao apresentar Tommy como um estudante de medicina legal que está apreendendo com o pai as técnicas da profissão. Isso permite que o personagem de Brian Cox possa narrar o passo-a-passo técnico da autópsia sem soar artificial para o espectador.


Infelizmente, o filme perde bastante força em seu clímax, já que a solução do mistério surge acelerada demais e pouco convincente, uma vez que justamente o personagem mais racional e cético em relação a fenômenos sobrenaturais é o que desvenda o enigma. Ele também se torna mais previsível ao inserir um gancho para uma possível continuação, o que já se tornou um clichê dos mais irritantes do cinema de horror.
Em suma, A Autópsia é um (bom) exemplar de cinema de terror que consegue ficar acima da média do gênero, e é conduzido por um diretor promissor e que deve ser acompanhado de perto.

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AUTOR DO TEXTO:

DIOGO DOMICIANO

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