CORPO E ALMA (2017): “UMA HISTÓRIA DE AMOR NADA CONVENCIONAL”

Por Eduardo Pepe

 

Semifinalista no Oscar e vencedor do festival de Berlim, filme Húngaro conta uma história de amor nada convencional.

 

Mária (Alexandra Borbély) é uma funcionária nova em um matadouro. Ela é fria, distante de todos, não parece querer se abrir com ninguém nem se importar com nada a sua volta, ao não em fazer um serviço milimetricamente bem feito.  Com o tempo, vemos que ela tem um comportamento de autista e sofre de TOC, sobretudo, relacionado a arrumação. Por isso, evita a todo custo contato físico e emocional e parece viver em um mundo só seu. Na prática, Mária tem um desenvolvimento emocional como de uma criança começando a se abrir para o meio externo. A personagem remete ao filme grego “Dente Canino” (2009), em que os filhos do casal principal eram criados totalmente dentro de casa sem relação com o meio exterior.

Na outra ponta da trama, está Endre (Géza Morcsányi), o coordenador do matadouro. Aparentemente está tudo bem, ele tem relação educada e cordial com tudo e com todos, mas há algo por de trás dessa aparente normalidade. Ele, em sua vida pessoal, é um homem solitário e triste que há tempos não tem uma real conexão com alguém.

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Os dois personagens vão estabelecendo uma relação entre si, mesmo a contragosto inicial dela. A beleza do filme reside em como isso vai acontecendo. A diretora Ildikó Enyedi não tem presença em apresentar e acompanhar o cotidiano de seus personagens e constrói um romance distante das convenções tradicionais.

Inicialmente, há um estranhamento. O comportamento beirando ao robótico dela e o tom apático dele parecem conduzir a trama para um desinteressante suspense policial, mas logo esse ponto da história revela para um caminho mais interessante e onírico. O filme se volta para os sonhos dos personagens, o que acaba sendo o elemento simbólico central do filme. O que ocorre no plano do inconsciente parece tão simples, correto e bom, mas na vida real há diversas normas sociais e complicações pessoais que impedem de por em prática a aparente simplicidade do sonho.

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A atriz Alexandra Borbély tem um trabalho muito difícil. Sua personagem beira ao infantil e ao robótico, mas com o passar do tempo ela tem que se entregar aos poucos as descobertas e prazeres da vida. Ela se mantém o filme todo num tom muito particular entre a expressividade e a apatidão. A atriz consegue dar um tom angelical e, de alguma forma ainda, sensível. Com o passar do tempo, se consegue entender melhor como sua personagem é de fato. Por sua vez, Géza Morcsányi é igualmente eficiente ao mostrar um homem que por de trás da normalidade esconde uma tristeza interior. O ator demonstra facilidade em transparecer bondade ao mesmo tempo que passa uma certa tristeza interior, mas seu Endre nunca deixa de ser, acima de tudo, um homem justo e bom.

Festejado no festival de Berlim, “Corpo e Alma” saiu com quatro prêmios de lá, incluindo, os dois mais cobiçados; o Urso de Ouro de Melhor Filme pelo júri e o FIPRESCI de Melhor Filme pela crítica internacional. Representante na Hungria na corrida do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro, o longa entrou na lista dos nove semifinalistas. A competição para entrar entre cinco indicados finais é acirrada e é difícil dizer se esse conto aparentemente despretensioso e estranho de amor entre dois seres esquisitos vai conquistar a atenção da academia a ponto de conseguir a indicação. De qualquer forma, o longa, embora de forma alguma seja para todos os gostos, tem delicadeza e inventividade de sobra para fazer jus a sua presença nessa disputa.

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