CORINGA (2019): “ TODD PHILLIPS E JOAQUIM PHOENIX MERGULHAM DE CABEÇA NA LOUCURA DA SOCIEDADE”

Por Alexandre Cesár

 

Sejamos honestos: A vida de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix de O Mestre, Johnny & June, Gladiador numa interpretação para lá de visceral) é uma M3#*%A!!! Por mais que ele tente se integrar à sociedade, na caótica, suja e despedaçada cidade de Gotham dos anos de 1970, ele sempre tem todas as cartas do baralho voltadas contra ele… Trabalhando (e colecionando toda a sorte de humilhações…) como palhaço durante o dia, ele tenta a sorte como comediante de stand-up à noite, morando num conjunto de apartemenstos de baixa renda com a sua velha e doente mãe Pennny Fleck (Frances Conroy das séries American Horror Story, Castle Rock, e A Sete Palmos) que insiste em querer pedir ajuda ao futuro candidato à prefeitura Thomas Wayne (Brett Cullen (42A História De Uma Lenda, da série Narcos e que foi o pai do herói de Motoqueiro Fantasma), com quem, segundo ela, tem um vínculo não “revelado”. Preso em uma existência que oscila entre a realidade e a loucura, Arthur tem como objeto de desejo Sophie Dumond (Zazie Beetz de Deadpool 2) sua vizinha de andar, e assiste toda a noite ao talk show de Murray Franklin (Robert De Niro (Touro Indomável de 1980, O Poderoso Chefão 2 de 1974). Uma noite, após tomar uma decisão equivocada, ele inicia uma reação em cadeia, com consequências cada vez mais graves e letais, e neste processo, ele vai mergulhando cada vez mais fundo na loucura ao descobrir que por mais que tentasse ser um cidadão bom e obediente às leis, a piada desde o início era ele mesmo…

Dirigido por Todd Phillips (da trilogia Se Beber, NãoCase!), Coringa (2019) reinterpreta o icônico vilão de forma ainda não mostrada no cinema, agora como o gatilho de movimentos sociais, como as revoltas de Los Angeles na década de 1990 ou o mais recente Occupy Wall Street, acabando por representar os  excluídos do sistema, vítimas da recessão econômica, da falência das políticas públicas quando as verbas dos serviços sociais e de saúde são cortadas e da falta de oportunidades de conquistar um lugar ao sol. Ou seja, os “palhaços” da sociedade como um personagem declara num noticiário a certa altura do filme, criando uma relação de antagonismo contra o empresariado. Pontos de ligação com o momento social vigente.

 

Divulgação @Warner Bros

O roteiro de Phillips e Scott Silver (O Vencedor), apresenta o futuro vilão na mesma proposta original de A Piada Mortal:  Um “perdedor” em todos os sentidos, dosando os momentos de tragédia com os de comédia agridoce de forma primorosa, pontuando a forma como Fleck recorre aos musicais de Fred Astaire, à música de Frank Sinatra ou à uma dança inspirada em Charles Chaplin para criar o seu mundinho próprio, onde ele tem todo o seu valor reconhecido, tendo todos os seus esforços recompensados e conquistando o amor. Livre do maniqueísmo comum aos “filmes de heróis”, aqui mergulhamos na vida e na psique de seu protagonista, que tem um distúrbio que o faz rir de forma incontrolável quando sofre de ansiedade. Uma risada que vem do diafragma, gerando uma sensação de incômodo na platéia… Reconhecemos facilmente no filme  a influência de Martin Scorcese, sendo Afleck um similar dos personagens de dois de seus clássicos: Taxi Driver (1975) e O Rei da Comédia (1982) obras seminais na discussão sobre o fascínio que o mundo das celebridades exerce sobre o indivíduo comum, gerando muitas vezes no processo de descoberta da diferença entre sonho e realidade (e da inevitável decepção…) reações adversas e até destrutivas. Somemos a isso os fracassos de uma massa de descontentes na vida pessoal, profissional e e afetiva, adicionadas à possibilidade de portar armas e, podemos intuir o resultado…

Deve-se parabenizar a direção de arte na costrução desta Gotham setentista, desprovida de qualquer aspecto gótico ou expresssionista, parecendo assim, uma típica cidade americana. O desiger de produção Mark Friedberg (Se a RuaBeale Falasse, Selma Uma Luta pela Igualdade) cria ambientes urbanos geométricos e estreitos, retratando o mundo dos sem perspectivas que vivem no subemprego numa cidade coberta de lixo (os garis estão em greve, então não faltam sacos pretos ao longo das ruas e calçadas…) procurando nas locações ruas com escadarias, prédios de escritórios apertados com escadas de incêndio, dando para becos e  estações de trem (praticamente todos os personagens só usam o transporte público) fazendo vizinhança com muitos inferninhos e cinemas pornô, coisa que a granulação e a palheta de cores de tons frios (e puxando para o âmbar nos momentos mais idílicos) da fotografia de Lawrence Sher (Godzilla II: Rei dos Monstros), cria para enfatizar o confronto sonho x realidade nas texturas de seus  ambientes amplos e closes de seu protagonista e, em consonância com o editor Jeff Groth (Cães De Guerra) nos remete a filmes clássicos de perseguição como Operação França (1971) como na seqência em que Afleck foge pelas ruas e escadarias dos Detetives Garrity (Bill Camp de Operação Red Sparrow, A GrandeJogada) e Burke (Shea Whigham de O Primeiro Homem, Kong: A Ilha da Caveira) já paramentado como o icônico personagem, que o figurinista Mark Bridges (Trama Fantasma, O Artista) magistralmente reinveta de forma própria, diferenciada de todas as anteriores, Tudo isto embalado pela música de Hildur Guðnadóttir (Sicario: Dia do Soldado e da série Chernobyl) que de forma sutil acompanha com seus acordes a espiral decadente de Fleck.

Divulgação @Warner Bros

Como fanservice, temos aparições rápidas e pontuais de um jovem Bruce Wayne (Dante Pereira-Olson) com direito a um “Bat-poste” e Alfred Pennyworth (Douglas Hodge de Operação Red Sparrow”, e da série Penny Dreadful) e na cena da morte do casal Wayne, remetendo ao clássico das HQs Batman O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, temos uma sutil piada de metalinguagem sobre a sexualidade do futuro herói, pois o filme do qual eles saem do cinema não é o clássico A Marca do Zorro (1940) com Tyrone Power, mas sim, As Duas Faces de Zorro (1981) com George Hamilton…

Em que pese toda a polêmica que o filme está gerando, principalmente quanto à identificação dos In Cels* e o suposto estímulo do filme a propagar os seus pontos de vista (similar ao que já foi dito sobre Laranja Mecãnica, Clube da Luta e Matrix no passado…) a proposta de Phillips nunca é a de glamourizar o famoso “Palhaço do Crime”, embora decida mostrar o seu ponto de vista da narrativa, deixando óbvio que Fleck é um sujeito perturbado como aqueles que sempre lemos em jornais ou vemos dissecados em programas criminais como Investigação Discovery, cuja  trajetória, no pano de fundo socioeconômico desta versão estagnada de Gotham City, o faz entrar uma relação de antagonismo contra o empresariado, representado por Thomas Wayne, que reflete a visão neoliberal, da “meritocracia”, não servindo apenas como base de comparação com tópicos reais deste nosso mundo (atualmente tomado pela polarização), mas ao chocar-se com o arco de Arthur, evoca uma provocação pelo refletirmos sobre o quanto é necessário para quebarmos também? Um dia ruim? Um período ruim/ Uma vida inteira ruim? Ou… talvez nunca.

*: Diminutivo da expresão “Involuntary Celibates” (“Celibatários Involuntários” ) grupos de homens entre os 20 e 40 anos que por serem incapazes de  se relacionar sexual e amorosamente culpam as mulheres e os homens sexualmente ativos por isso, difundindo na interneta misoginia e até provocando atentados armados.

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